A Fire Tale…

And there I was… Sitting alone, on the floor, with my toy kitchen. I got the little pans, and the teeny-tiny supplies – to make “serious” imaginary food. I opened the fridge. Then the drawers. Finally, the top cabinets. There… surprise-surprise: a match box. A real one. The exact brand I saw everyday in the huge real-life kitchen, in the hands of Mrs. Manuelina, my grandmother’s cook and the only woman I’ve ever called Mrs. in my life, cause she felt like a queen to me… I picked it up. Opened the box. Inside, just ONE single match. Hum… 

Was it real?… Couldn’t be, right? No way… But, if it was… Would I know what to do with it? I had seen Mrs Manuelina, the queen, managing matches all the time. It seemed easy enough. I could just do it. Make that “risk” gesture. Nothing would really come of it, for sure. This was, after all, a toy. It was all imaginary. Nothing to fear, at all. I looked around. Not a single soul anywhere to be seen… I’m all by my self, I thought. Just me, at the powerful heights of my six-year-old self. In one move, I risked it. And…

Oh my God! That thing was real! I screamed. And tossed it over, on the floor, away from me, terrified. Nothing of consequence happened. The lighten match went out on it’s on. I didn’t get burned or anything. But I was seriously frightened by the surprise and the power of IT. IT!!! And a history of attraction-repulsion began. Above all, fear. FEAR in capital letters. That one you know is bigger than reason… I couldn’t do it anymore. I would never, ever, again come anywhere near… IT. I was not about to get burnt. No bloody way. Not ever.

As time went by, “we” had other encounters… And the fear grew at every turn of a corner. I would refuse to get anywhere near it. My heart would start racing if someone would so much as lit a cigarette many steps away from me. Independent as I became with house chores at a very early age, I would never make myself a grilled cheese if there was no one else around to do the IT part for me. I would cry and beg to avoid touching  matches… When I was ten, my mom decided it was time to do something about it. 

“This ends right now”, she said, standing in front of me, in the kitchen, with a match box in hands. “Take it. Do it. I’m right here”. Oh my God, the drama of it. I was shaking like a bamboo stick in the eye of a storm. Shaking and sweating. I could hardly breathe. My sister came in, so did my step father… Gosh, the dogs even came to watch the spectacle of a lifetime! And it was ,definitely, a “show”. A loooong one. But, eventually, I did it. I lit a bloody match. Watched it “on”, for a second. Blew it out, safely. First time was really intense. So, so scary. I felt I was about to have a heart attack. Second time, almost just as bad. Third time… Forth… Fifth… Tenth… Twentieth… Hell, I did the whole damn box! I took it to the living room and did it while watching my favorite tv show. The next day, when my mom came into the house, she found me with a huge pile of used up matches in front of me, in the astray. She shook her head and laughed: 

“Nice, now I’ve created a pyromaniac”…

It was not so, obviously. I mean… There was a certain pleasure in the act… The power, the beauty of it… But, most of all, it was about the thrill of conquering a deep, overwhelming fear I had been carrying with me for so long. I had successfully overcome a big obstacle in my life. It was a “big win”. Yet… I had never really understood that fear until now…

Fears don’t come out of nowhere. Nor do they make sense in the way we usually think they do. Sometimes big, horrible events happen to us and we develop no significant fear over them. I mean, how many times I fell down the stairs, or hit my head playing ball, or cut myself with a knife? And yet… I never feared stairs, or balls or sharp objects. 

On the other hand, years later, I would develop a close-to-phobia-fear of lions (mind you, I never came anywhere near to the king of the jungle… cause… right?… Who has? We’re not in ancient Rome, after all) that included repetitive nightmares, for years. It got so bad, at one point I couldn’t stay very long in a room if there was a picture of a lion nearby… And since we’re talking animals, don’t even get me started on horses…

But, back to the original fear of my life… That thing… IT. But when and where did it start, anyways? For many years, I thought it did at that moment, with the toy kitchen. It wasn’t the case… As any other fear, that one really began with… myself. I never really feared the thing itself. I feared what it MEANS. 

Fire is the first and ultimate power of life. It is also the major force of destruction. It’s beautiful and mesmerising. Dangerous and deadly. It’s golden and bright, it turns things into dark ashes. It makes us warm and comfortable. It burns and kills us. It is a symbol of genius, victory, passion. It is the image of terror, punishment, death. The thing that can never be just one or the other. It is all of it and that’s the only way you may… you MUST take it, embrace it, be MADE by it.

As I begin this new year, of 2022, and I contemplate the road ahead of me, the woman I’ve become; I look back, for a moment, at that girl, who kind of knew that match was real and risked it anyway… And then there was… There is… IT. FIRE.

Presente de Natal

O que você pediu de presente ao Papai Noel? Não responda logo, de pronto, no automático. Uma mentira vai sair pela sua boca. Uma mentira do pior tipo. Aquela na qual você mesmo acredita, porque faz parte de você, tão intimamente. 

Você vai dizer que Papai Noel é das crianças. Uma linda fantasia, a magia da infância, o momento da vida onde tudo era possível. Ah, como era bom ser criança…

Mentiras, quantas, quantas mentiras dependuradas pra todo lado. Não caberiam na minha ex-árvore de natal, na minha ex-casa, na minha ex-cidade, na minha ex-vida. Hell, não caberia também na árvore da casa da família, quando eu era pequena, maior ainda e com mais penduricalhos falsos. Falsos, mas belíssimos. Belíssimos, mas quebráveis. Once upon a time, a fantasia era mais elaborada, a casa era maior, a família era mais unida, os enfeites eram de vidro.

Eu volto para a minha infância… Eu, minha irmã, meus avós, as tias, os primos, em volta da árvore que ia up and up até o teto que, por sua vez, parecia ir até o infinito; o cheiro de pinheiro, madeira e surpresas felizes (às vezes não, mas a gente sempre torcia…) embrulhadas em pilhas de papéis multi-coloridos, com laçarotes vermelhos. 

Com muito cuidado, vovó dizia, me passe mais uma bola. A grande; a média; não,  não, a pequena, agora. Aquele outro enfeite em formato de pingente ou, como eu via, de brinco de princesa. Vermelho cereja. Verde-esmeralda. Amarelo-ouro. E o meu favorito: azul. Que azul era aquele? Céu?… Bom, seria se o céu fosse criado por mim. O mais lindo de todos os azuis…

Decoração feita, algumas bolas destruídas, o cheiro de rabanada e bolinho de bacalhau no ar, horas e horas brincando de ajudar o meu avô a quebrar nozes, mesa posta, filme antigo de natal passando na televisão, todo mundo falando ao mesmo tempo e ninguém realmente se entendendo, o que, de alguma forma, não importava… Não havia muito mais a fazer além de colocar os sapatinhos na janela, torcer para a carta ter chegado ao polo norte direitinho e ir dormir sabendo que, ao acordar, a mágica teria acontecido e, lá ia estar ele… O presente de natal. Aquele presente. Sabe qual?…

Eu não sei… Eu tento me lembrar de algum presente de Papai Noel que tenha me feito ir às nuvens. Nada me ocorre. Então, ao invés disso, eu tento lembrar em que momento eu deixei de acreditar. Ou, o que é mais complicado: se eu realmente acreditei um dia. Se eu seria capaz de acreditar agora.

Eu faço a pergunta e percebo que a resposta não está na infância. Nem a pergunta, nem Papai Noel. Passados os anos, muita coisa mudou. A família já não é tão unida, o bolinho é comprado pronto, a rabanada é light, de forno, o panetone se parece com tudo menos panetone, o pinheiro não tem o mesmo cheiro, as bolas são de plástico, para não quebrar, a pilha de presentes é o amigo oculto virtual. Tudo mudou. Mas Papai Noel e o tal presente são os mesmos. E nada poderia ser mais tristemente adulto. 

Oi? Flávia, você bebeu vinho do Porto demais?… What’s wrong with you?! Eu digo o que está errado. Assim como uma história só é tão boa quanto o seu autor, o sonho é determinado por quem o cria. E a humanidade não sabe sonhar. Tudo é tempo, espaço, limite, regra, função. Mais do que qualquer coisa, tudo é transacional. 

Vai escrever a carta ao Papai Noel? Ah, não pode pedir isso ou aquilo, não… De repente… se você der opções ao bom velhinho?… Uma lista de melhor de três?… Os duendes, afinal, tem muito o que fazer… Ah, pediu uma coisa razoável? Ok. Mas ainda assim, tenha muito cuidado. Papai Noel não presenteia criança que repete o ano, que faz malcriação, que bate no irmãzinho, que desobedece a mãe, que mente… Ah, as mentiras… Elas e os penduricalhos de árvore que já nem quebram mais. São resistentes mesmo. Imutáveis. Ficam ali – entra ano, sai ano. Nada que se possa fazer a respeito. Já não são tão bonitos assim, já não te fazem pensar no céu imaginário ou em princesas encantadas mas, ó, são “razoáveis”. E o que mais se pode querer nessa vida?…

Nada. Não se pode querer nada. Não sem uma lista infindável de qualificações. Você pode comprar o vestido lindo. Se você tiver trabalhado horrivelmente e odiado cada segundo. Porque, né… Coisa engrandecedora ao ser humano é odiar a própria vida. Vale uma pilha gigante de presentes, isso aí. Então sofra. Muito. Talvez, talvez… Se você sofrer muito mesmo, isso te dê direito a um vestido e um par de sapatos. Confortáveis e… Beges. Não vá me sonhar com os sapatos vermelho-cintilantes da Dorothy de “O Mágico de Oz” . Coisa mais infantil e despropositada… 

Ah, você não quer nada material? Você é um ser de luz que quer amor?… Joia. Mas não sem antes justificar pra si mesmo, os amigos, o analista e o teto do seu quarto que você merece amar e ser amado porque, afinal, você é boa pessoa e sofre taaaaaanto nessa vida. Amor. Ele vai vir. Em troca de mil anos de dor e uma Bahia de Guanabara de lágrimas, mas quem está contando?…

Nem amor você quer? Você é uma pessoa mesmo muito básica. Você só quer ser feliz nesse momento. Ter um natal alegre. Dar umas risadas com a família. Sorry. No. O mundo está acabando, tem uma pandemia rolando, muita gente morreu esse ano, o governo está destruindo os seu país… Como assim, ser feliz nesse natal? Tenha bom senso. Vamos fazer as contas disso aí. Colocar tudo na cartinha. Papai Noel que diga se você pode ou não ter ou ser ou sentir o que quer que seja.

Eu respiro fundo. Olho pela janela. E de volta pra tela do computador. E de volta para a janela. Estou tão, tão, tão longe. Da Bahia de Guanabara. Da falação desconexa da família. Da árvore que vai até o infinito. Do meu avô que agora só quebra as nozes em algum outro plano de existência. Não, eu nunca acreditei em Papai Noel. Antes. E eu nunca pedi o que eu queria. As coisas que eu realmente queria, em segredo.

Querido Papai Noel, neste Natal e para sempre, eu quero…

As coisas que não podem ser quebradas. Não por serem feitas de plástico. Absolutamente. Por serem feitas de… Nada. Poeira de estrela. Poeira de mim mesma, talvez… As coisas que são feitas em algum lugar entre o céu e a terra, um lugar meu, onde o tempo é abstrato,  os meus afetos não precisam de selo de aprovação, os sonhos não são classificáveis e a alegria de viver, ou não, está sempre aqui só porque… sim. Porque sim. Porque nada real faz sentido. Ao menos não o sentido que tentamos, em vão, impor. Sorrir em meio aos escombros acontece. Chorar no ápice da glória, também. Essa, a mágica que existe em nós, seres humanos.

As horas passam. Eu pego no sono. Os sapatos não estão na janela. A carta não foi enviada ao Polo Norte. Eu não preciso pedir ao Papai Noel… O presente sempre esteve aqui.

A Cidade De Um Sapato Só

Eu andava pelas ruas do Rio. Falava com elas. Elas, comigo. Coisas, muitas coisas. Coisas de olhar pra frente, pra trás, pra cima… Eu gostava sempre, muito, de olhar pra cima ou pra coisas que fossem… Lá. Lá, o alto, o céu, o infinito. Porque de lá, sim, alguma chance de ver o aqui como se deve. De verdade. Com aquela consciência de poder ser Deus por meio segundo – nem meio humano, propriamente, uma vida inteira. Mesmo assim, valendo a pena olhar… 

Olhei. Vi. Uma coisa tão estranha. Um… Um… Sapato. Ali, na calçada do predinho antigo – charmoso de longe, decadente de perto; lar, de todo jeito. Aquele sapato, ali. Um só. Segui caminho. Permaneci.

Outra esquina, outro sapato. Não o par do que eu tinha visto antes. Não. Outro sapato, totalmente diferente, em tudo mesmo, exceto pelo fato de também estar… Sozinho. Dois quarteirões à frente, de novo. Do outro lado da rua, também. Na pracinha onde eu brincava – os adultos tomando chope, discutindo o jogo do Flamengo. Na beira do Rio Maracanã. Na frente da farmácia triste, fantasma do mais deslumbrante cinema tijucano. Em Botafogo, à entrada lateral da minha antiga faculdade. No Centro, próximo ao cartório onde eu tirava documentos para me mudar…

Eu já não falava com as ruas. O Porto surgindo, à frente; o Rio me escapando, atrás… No alto?… Nem sabia. Uma qualquer coisa. Uma não resolução. Um sapato. Sempre um só. Sempre. Eu tento esquecer. Não posso. No Porto, eu ando por ruas novas. E volto a falar. Numa língua que é a mesma sendo outra, completamente outra.

  Não há, nestas ruas, sapatos sós. Mas eu ainda os vejo. Atrás, em torno, no alto, no Rio… Eu os vejo através do tempo, do espaço, de tudo. Me ocorre que, talvez, seja por isso mesmo. As pessoas todas não vêem as mesmas coisas. A vida, como um filme, em constante foco, desfoco, corte, edição. A lente procurando o que é inevitável ser visto. Porque sim. Porque… Só… Porquê! Eu olho pro alto. De lá para os meus pés, andando no Porto, falando com o Rio. Perdi um sapato! Eu. Eu mesma. Um. Só.

Como foi possível, isso? Como pude, eu, perder UM sapato, assim, no meio da estrada? Perder e seguir andando, como se nada tivesse acontecido?… Então eu não sabia que é insuportável caminhar assim? Um pé protegido, o outro não. Um lado alto, seguro; o outro exposto, mal conseguindo acompanhar. O corpo todo a se mover claudicante, instável, num esforço extenuante onde dez passos se tornam mil quilômetros… Do alto eu me vejo, sem saber. Como Deus, por meio segundo. Meio ser humano, pela vida inteira.

Eu paro. Tiro o sapato que sobrou. Eu, que jamais ando descalça. Mesmo em casa, mesmo no mais limpo dos assoalhos. Não ando. Minha irmã me liga contando ter machucado seriamente os pés. Eu digo a ela, de volta, de pronto:

“Estava descalça, não estava? É nisso que dá…”

É nisso que dá… Eu tiro o sapato assim mesmo. Caminho descalça. Machuco os pés. Seriamente. Machuco mesmo quando não machuco, apenas sinto. Para quem não sentia nada, afinal, qualquer sentido é dor. Ainda assim, melhor; infinitamente melhor do que o arrastar agonizante dos pés que não se falam. Um aqui, outro lá. Um no Porto, um no Rio. 

Eu opto por caminhar descalça. O sapato solitário aguarda. Eu falo com as ruas. Elas, comigo. Muitas, muitas coisas. Coisas de sentir. À frente, atrás, agora, nunca mais, para todo sempre. Coisas de procurar com os olhos fechados. De encontrar no lugar mais insuspeito – mais estupidamente óbvio. A lente que captura, e projeta, o inevitável. O sapato que espera no Porto, o sapato que perdi no Rio… 

Ou Isto Ou Aquilo…

As luzes se acendem no palco. Se apagam na platéia. Eu respiro fundo. Há um cheiro em teatro. Um buzz. Uma coisa qualquer. Eu olho em volta. Espaço lotado. Tanta, tanta gente. Eles também sentem o cheiro? O buzz?… Não. Bastante óbvio que não. Eu também não devia mais sentir. Já não estou lá. Estou aqui. Lá, as crianças… Sorrisos embaraçados, passos trocados, câmeras, flashes. Eu aqui, imóvel. Vinte e um, vinte e dois anos. Que cansaço enorme. Exaustão, mesmo. O cheiro, o buzz, os flashes. Eu, menina, fecho os olhos. Ou isto ou aquilo. Ou isto ou aquilo.

O espetáculo é todo em homenagem a Cecília Meireles, minha prima, a mãe de uma das crianças explica, muito orgulhosa. Ah… eu digo… que lindo. Lindo. Falar sobre coisas feito poesia. Ah, falar sobre essas coisas… Mas não é possível ali – em meio a quem não sente o cheiro de um teatro. O cheiro, o buzz. Não há palavras. Os flashes as engolem, todas. As crianças lá, mas não. Os pais aqui, mas também não. Eu?… Onde eu estaria? Que cansaço. Eu respiro fundo. O cheiro… O buzz… O cheiro. Eu não deveria mais sentir isso. Já não estou lá. Ou isto ou aquilo.

“Quem fica nos ares não fica no chão…”

“Ou guardo o dinheiro ou compro o doce…”

“Ou se tem sol e não se tem chuva…”

Cecília. Grande, enorme, esplendorosa Cecília… Cecília Meireles e seu poema sobre escolhas. Ah, as escolhas… Essas coisas inevitáveis da vida. Saber escolher, sim, uma inescapável parte do crescimento humano. Esta blusa ou aquela? O vermelho ou o azul? O bolo ou o sorvete? Inglês ou francês. Aceitar que é preciso escolher. Saber escolher. Sim… Mas… E o saber NÃO escolher?

Como manejar uma vida entre a platéia e a ribalta? Na penumbra da zona cinzenta onde algumas pessoas existem – não que queiram. Eu, se pudesse, certamente escolheria ter sido um ser de black or white, aqui ou lá, isto ou aquilo… Mas quando, quando há de alguma coisa neste mundo obedecer às minhas vontades? Quando, eu pergunto. Eu, eu mesma, na minha totalidade fragmentada de mil verdades em uma mentira só. Eu, que fui fechando os olhos, sentada naquela platéia, embalada pela musicalidade das palavras de Cecília… Ou isto ou aquilo.  Ou isto ou aquilo. 

Eu penso naquele momento, aquela festa de fim de ano, aquele cair num sono profundo e absolutamente insuspeito… Eu, agora, no dobro exato da idade daquela menina que eu, um dia, fui. Eu, que não estou nem aqui nem lá; ou, antes, que estou aqui E lá. Que sinto o cheiro, e o buzz, e uma coisa qualquer. Que não me espanto, nem me chateio mais, ao perceber os que não sentem. Eu, que nunca me canso. Eu, que sou isto E aquilo E coisa nenhuma. Eu, que só posso estar inteira quando partida em mil pedaços. Eu penso, penso… E procuro por Cecília. Quem era, afinal, esta poeta das escolhas?

Cecília Meireles. Poeta, sim. Mas também professora, jornalista, artista plástica. Teve uma vida pequena, simples, muito solitária em casa, não brincava muito com outras crianças. Teve uma vida enorme, viajou por todo lado, falou várias línguas, conheceu muita gente. Foi solteira, casada, viúva, casada outra vez. Inteligente E respeitada E bonita. Sim, bonita mesmo. Eu achei. Uns olhos lindíssimos. Descritos como?… Azuis-esverdeados ou… verde-azulados! Nem isto nem aquilo. As duas coisas. Olhos lindos. Quem se importa de que cor eram?… Ela mesma, talvez?… É provável. Ao menos por algum tempo, em alguns momentos. Poetas, afinal, também são gente. E, nessa de ser gente, algumas coisas se complicam.

A angústia… Ah, essa terrível angústia da subjetividade, das possibilidades infinitas. Quem suporta uma coisa assim? Apelamos ao pensamento binário. Como já dizia a minha avó, o problema é ter roupa demais no armário. Quando só se tem uma, a solução é automática. Uma de cada. A roupa de casa, a roupa de sair. Bom ou ruim. Certo ou errado. Artista ou jornalista. Brasileira ou expatriada. Solteira ou casada. 

Ou isto ou aquilo. Eu me vejo fechar os olhos e ir dormir. As luzes se apagam no palco, se acendem na plateia. As pessoas se levantam e saem, em blocos. Pra casa ou pro restaurante? Pizza ou sushi? Coca ou Pepsi? Que cansaço… As palavras de poesia ficando pra trás… O cheiro, o buzz, a menina… Eu a deixo ir. Um dia a gente se encontra.  Um dia com chuva E sol. Eles existem.

This Gravitational Force…

She just sat there. For five minutes, for two hours, for many years, forever. So beautiful. Was she, really? Yes. No. Didn’t matter. She knew the answers. In that, her beauty. Siting there, the immensity of the sea ahead. The issue hovering over, some indefinite place. The issue… And the question.

Are you going in?

Where?

You know… In?

The ocean?

Going in, really in, all the way in… You?

That depends… You, who?

She. She. The character. Speak low. Better still, say nothing at all. Silence. It’s not possible to speak without making use of her. The character. And it. The sea. The deception is needed. Or it’ll wake up. It. The monster. The thing they call love, for sheer lack of a better word. It wakes up. Engulfing me. Engulfing everything there is. Silence.

In? Who? She. You may call her by any name. She, the character. She looks at the sea. No. The sea looks at her. They both look. Who looked first? Impossible to tell. Impossible. Even for her, that pays so much attention to everything, that keeps it all under control, that knows all the answers. Impossible to tell. Silence.

What is love? What is it, after all? Issue. Invention. Excuse. Social control mechanism. Game. Object of desire. Disease. Pure, pure fantasy. Delusion. Necessity. The thing for people who know no necessities. Nothing at all. The discussion goes on and on. So many words.

People like talking. It’s all there’s to do. It’s the swimming moves, in open sea. One arm, then the other, and back again. Makes sense, works, takes you back to dry land in perfect mathematical progression, logical, tedious. Until the sea tells you otherwise. Until it wakes up and says slower, faster, maybe now, maybe never. Until it sucks you deep down and swallows you and spits you out and grabs you in and lets you go.

It, the object of empty, superfluous analysis. That which cannot be foreseen, accounted for, contained. Which cannot be held in anybody’s hands for more than a fraction of time, for it will always find cracks from where to pass through and keep moving somewhere which domain could never be claimed. It, that is sovereign, unassailable, indifferent. It, that exists contrary to you, beyond your beliefs or conformity. That stays still, mute, deceased, non existent, for ages and ages, for more time of all times, till it awakens someday that never was, and takes over every single piece of time and existence you swore belonged to you and you alone. A thing of all things and of nothing at all. With no beginning and no end. No adjectives, no verbs, no words, per se, no numbers, no DNA, no qualifier, of any kind, coming from even the greatest of the intellects. Whatever for… that… it… after all? What for?…

The other loves… ok. Loving one’s children, friends, family members, mankind… Loving calmly, in the natural comings and goings, as we meet and miss and meet again, in the moderate emotion of being together, then apart. Me, right here. You, over there. See each other all the time now, very rarely later. All the time again. Normal. Good. Reasonable. Socially useful. Psychologically justifiable. 

The other love… Silence. Impossible to talk without it, the sea. And she, the character.

She just sat there. For five minutes, for two hours, for many years, forever. It… Calling. It… Wanting to wake up. The sea. The sea. And it will. Because it cannot be contained. Because it should not have any names, or theories, or speeches. It, that exists on its own. It, which is not an idea, nor an object, nor even a feeling. It’s not. Not, absolutely, a feeling. It just IS. Out, in, around, through. Magnetism which makes you need what is not necessary, leaves more alive that which it kills, makes unbearable that which has never been better. The non achievable materialisation of all paradoxes. 

It looked at her.

She looked at it.

Or was it the other way around?

Or was it at the exact same time?

Impossible to tell.

Even for her. The character. She, who couldn’t pay that much attention to it all any longer, who doesn’t have the strength to control a thing anymore. She, who doesn’t know the answers. In that, her beauty. Silence. Silence…

Explosion. The sea stands tall, huge, rebellious. And she can stay sited. Or get up. Dive, head first. Jump, on her feet. Walk into water and submerge, consensually. Not come in, in any way. Breathe under water, even if painfully. Struggle, for all times. Live, eternally, in drowning. Die, at each second. Merge with the water, perhaps, somehow…

To her, many, the possibilities.

To it, sovereignty.

Myself, that I called “character”. Love, that I called “sea”.

She… It…

The two of us… And this gravitational force.

Ela… Ele… E Essa Força Gravitacional…

Ficou sentada ali. Por cinco minutos, por duas horas, por muitos anos. Pra sempre. Tão bonita, ela. Era mesmo tão bonita? Sim. Não. Não importava. Sabia as respostas. Essa, a sua beleza. Sentada ali, a imensidão do mar à frente. O assunto pairando em algum lugar indefinido. O assunto… E a pergunta.

Você entra?

Onde? 

Você sabe… Entra?

No mar?

Entra de tudo, de todo mesmo… Você?

Depende… Você, quem?

Ela. Ela. A personagem. Fale baixo. Melhor, não fale nada. Silêncio. Não é possível falar sem fazer uso dela. A personagem. E dele. O mar. O falseamento é necessário. Ou ele acorda. Ele. O monstro. Ele, que chamam de amor, pela falta de palavra melhor. Ele acorda. E me engole. E engole tudo o que tiver pela frente. Silêncio.

Entra? Quem? Ela. Podem chamar de qualquer nome. Ela, a personagem. Ela olha pro mar. Não. O mar olha pra ela. Ambos se olham. Quem olhou primeiro? Impossível dizer. Impossível. Mesmo pra ela, que presta tanta atenção a tudo, que tudo controla, que sabe as respostas. Impossível dizer. Silêncio…

O que é o amor? O que é isso, afinal? Assunto. Invenção. Pretexto. Mecanismo de controle social. Passatempo. Objeto de consumo. Doença. Pura, pura fantasia. Ilusão. Necessidade. Coisa de gente que não sabe o que é necessidade. Coisa nenhuma. A discussão segue e segue. Tantas palavras.

Pessoas gostam de falar. É o que se pode fazer. São as braçadas no mar. Uma, depois outra, e outra. Faz sentido, funciona, te leva de volta pra margem em progressão matematicamente perfeita, lógica, enfadonha. Até que o mar diga diferente. Até que ele acorde e diga mais devagar, mais rápido, nunca mais. Até que ele te arraste ao fundo e te engula e te cuspa e te prenda e te solte. 

Ele, o objeto de análise vazia e supérflua. O que não pode ser previsto, contabilizado ou contido. Que não pode ser retido nas mãos de ninguém por mais de uma fração de tempo, que sempre acha frestas por onde passar e seguir se movendo para algum lugar cujo domínio não pode ser reivindicado. Ele, que é soberano, inatacável, indiferente. Ele, que existe à sua revelia e independente da sua crença ou concordância. Que fica parado, mudo, morto, inexistente, por tempos e tempos, e mais todos os tempos do seu tempo, até que ele desperte em algum dia, que nunca existiu, e tome conta de todos os pedaços do tempo e de existência – que você jurou que eram seus. Uma coisa sem coisas. Sem início, sem fim. Sem adjetivos, sem verbos, sem palavras, por assim dizer, sem números, sem DNA, sem qualquer qualificador, de qualquer ordem da maior das inteligências.

Pra quê isso, afinal? Pra quê?

Os outros amores… ok. Amar os filhos, os amigos, os membros da família, a humanidade… Amar tranquilamente, nas idas e vindas naturais, nos encontros e desencontros, na emoção moderada de estar juntos e depois separados. Normal. Eu aqui, vocês ali. Nos vemos sempre agora, muito raramente depois. Sempre de novo. Normal. Bom. Tudo sempre bom. Razoável. Socialmente útil. Psicologicamente justificável.

O outro amor… Silêncio. Impossível falar sem ele, o mar. E ela, a personagem.

Ficou sentada ali. Por cinco minutos, por duas horas, por muitos anos. Pra sempre. Ele… Chamando. Ele… Querendo acordar. O mar. O mar. E vai. Porque não pode ser contido. Porque não deveria ter nome, nem teorias, nem falas. Ele, que existe por si só. Ele, que não é ideia, nem objeto, nem sentimento. Não é. Não é, absolutamente, um sentimento. Simplesmente é. Fora, dentro, em torno, através. Magnetismo que te faz precisar do que não é preciso, que deixa mais vivo o que mata, que torna insuportável o que nunca foi melhor. A materialização não concretizável de todos os paradoxos.

Ele olhou pra ela.

Ela olhou pra ele.

Ou foi o contrário?

Ou foi ao mesmo tempo?

Impossível dizer.

Mesmo pra ela. A personagem. Ela, que não pôde mais prestar tanta atenção a tudo, que não tem mais energia para controlar coisa alguma. Ela, que não sabe as respostas. Essa, a sua beleza. Silêncio. Silêncio…

Estrondo. O mar se agiganta. E ela pode seguir sentada. Levantar. Pular de cabeça. Saltar de pé. Caminhar água a dentro e submergir, consensualmente. Não entrar, de forma alguma. Respirar debaixo d’água, ainda que dolorosamente. Se debater, por todos os tempos. Viver, eternamente, em afogamento. Morrer,  a cada segundo. Se fundir com a água, talvez, de alguma forma…

A ela, muitas, as possibilidades.

A ele, a soberania. 

Eu, que chamei de ela. O amor, que chamei de mar. 

Ela… Ele…

Nós dois… E essa força gravitacional.

O Porto, O Barquinho E A Festa… Um Dia

photo by: Flávia Ruiz

Essa semana eu fui descendo pelas ruas do Porto até a Ribeira, batendo fotos. Uma música indo e vindo na minha cabeça. “O Barquinho”… 

“Dia de luz, festa de sol/E um barquinho a deslizar/No macio azul do mar/Tudo é verão, o amor se faz/Num barquinho pelo mar/Desliza sem parar…”

Se você é brasileiro e carioca, como eu, essa música é mais do que familiar. É parte do inconsciente coletivo, praticamente. E ela veio pra mim, naquele momento. É início da primavera aqui. Primavera mesmo.

photo by: Flávia Ruiz

Aqui as estações mudam. Dramaticamente, concretamente, pra todos os seus sentidos notarem. A luz é outra, a temperatura sobe de repente, as flores explodem por todo lado, as borboletas e abelhas aparecem, o pólen passa voando – às vezes um aqui, outro ali; às vezes em “nuvens” tão grandes e densas que já me fizeram correr na direção oposta, porque, né, alergia – e um certo quê de irracionalidade ridícula que faz parte desta pessoa aqui, em algumas situações da vida…

Ah… A primavera, a promessa do verão depois de um longo e tortuoso inverno. A festa. Tudo é festa. Segundo o Barquinho. É?… É mesmo? Parece ser. Deveria ser. Eu tento, mais preciso do que tento, crer que seja. Eu desço as ladeiras, respirando com algum esforço, por baixo da máscara, clic, clic, clic.

photo by: Flávia Ruiz

A gaivota que passa está em festa, a boneca-moça na janela está em festa, as árvores estão em festa. O barquinho, ali no Douro… O barquinho está em festa.

Eu?… Eu tento. Não acontece. Não sei mais como. Mas vou. Um dia. Um dia, de alguma forma, vou estar em festa. Um dia, quando tudo é verão e o amor se faz. Um dia.

The Fear, The Fall, The Flight…

I was little. Very, very much so. In that time that comes before the time when you know you’re little. Before the time you know you are. The movement dazzled me.  Anything that meant going out there, walking the path…

People’s legs went by. I got hypnotised. That fast, agile pacing. Freedom.

The girls’ roller-skates glided by. I got hypnotized. That graceful zig-zagging, around me. Freedom.

Above all else, bicycles. Oh, the bikes. That wonderful miracle of the perfect balance, of the effortless riding, the wind, the wind, the wind… That was flying, I was sure. Freedom. More, way more than freedom. The very absence of the oppression of time and space, of being anything for anyone. Simply to be in motion, like a bird that has nowhere, and no reason, to come back…

May I go? No. Too soon. Time for training wheels.

I hated those wheels. Hated. They left everything stuck. Did this dreadful noise. It felt like being tied up. Mortal hatred. But it wasn’t my time yet. My big sister, yes. The neighbour, also. The other kid, from the building next to ours. My older cousin.

And then, it started… Skinned knees, bumps on foreheads, wrecked toes, wrecked everything! And blood, blood, blood. Tears. So many tears. And there they went again. And again. And again. Swallowing hard, I asked my sister about the accidents. She said:

“There’s no other way. Nobody learns if not by crashing.”

I pulled back. Wasn’t for me, all that drama. Thanks but no, thanks. I could very well live without riding bikes, couldn’t I? Yes. But no. Yes, but, then, what to do with that desire to fly? I could. Yes. But, then, what to do with myself?…

A few years went by. I was already too big. Too old. Eleven! Who would learn at that age? Me! I would. Even if it would take my whole life. And the help of my sister. My aunt. My other aunt…

Today is the day. No, it’s not. Almost made it, but I lost the balance. And the courage. Not sure which one first. Both. Almost made it again. Was going well. In straight lines. But couldn’t turn the corners. Having to change course, I fell. And falling, it hurt. And hurting, I pulled back. I would never know how to do that. Never. It was, simply put, against the laws of nature. Against my own, at least, it was. But, oh, the wind… and the feeling of being almost, almost, almost…

End of the summer holidays. My older cousin took over the task. A small street, a tiny little hill, an enormous will to go and then…

I went! How? How did it happen? The sudden balance… Where did it come from? Didn’t know. Didn’t care. Still don’t. Now, more then ever. Me and the bike were one. I was flying. Freedom. Passion. Obsession. There weren’t enough hours in that first day for me to ride. And to go up the hill, and back down. In the fastest possible speed. More and more. Happy, so happy. But it hurt. A lot. At first, for riding too much. Other times, later on, a lot of them, because I crashed. Got skinned. Bled. And I still have quite a lot of fear in me. Every now and then, I pull back. But I always end up going on the bike again… Flying is all there is. I simply must go on…

O Medo, A Queda, O Voo…

Eu era pequena. Muito, muito. Naquele tempo que vem antes do tempo em que se sabe que se é pequena. Antes do tempo em que se sabe que se é. O movimento me encantava. Qualquer coisa que significasse sair por aí, trilhar o caminho…

As pernas das pessoas passavam. Eu ficava hipnotizada. Aquelas passadas tão largas e rápidas. Liberdade.

Os patins das meninas deslizavam. Eu ficava hipnotizada. Aquele deslizar em zigue-zague, com tanta graça. Liberdade.

Sobre todas as outras coisas, as bicicletas. Ah, as bicicletas. O maravilhoso milagre do equilíbrio perfeito, as pedaladas sem esforço, o vento, o vento, o vento… Aquilo era voar, eu tinha certeza. Liberdade. Mais, bem mais do que liberdade. A ausência da opressão de tempo e espaço, de ser qualquer coisa de qualquer pessoa. Só estar em movimento, feito um pássaro que não tem pra onde, nem por quê, voltar…

Posso ir? Não. Muito cedo. Tempo de rodinhas. 

Eu odiava as rodinhas. Odiava. Deixava tudo preso. Fazia um barulho enjoado. Era como estar amarrada. Ódio mortal. Mas não era minha vez ainda. Minha irmã mais velha, sim. O vizinho, também. O outro garotinho, do prédio ao lado. Minha prima maior. 

E aí, começou… Joelho ralado, galo na testa, dedo do pé arrebentado, tudo arrebentado! E sangue, sangue, sangue. Lágrimas. Quantas lágrimas. E lá iam eles de novo. E de novo. E de novo. Engolindo seco, perguntei pra minha irmã sobre os acidentes. Ela disse:

“Não tem jeito. Ninguém aprende a andar de bicicleta sem se arrebentar”. 

Recuei. Não dava pra mim não, aquele drama todo. Thanks but no, thanks. Eu podia muito bem viver sem andar de bicicleta, não podia? Podia. Mas não podia. Podia, mas o que fazer com aquela vontade de voar? Podia. Mas o que fazer comigo mesma?…

Uns anos passaram. Eu já estava grande demais. Velha demais. Onze anos! Quem aprende naquela idade? Eu, eu ia. Nem que levasse a vida toda. E a ajuda da minha irmã. Da minha tia. Da minha outra tia. Hoje vai. Não, não vai. Quase foi, mas perdi o equilíbrio. E a coragem. Não sei qual primeiro. Os dois. Quase foi de novo. Estava indo bem. Em linha reta. Mas não sabia fazer curva. Tendo que mudar de rumo, eu caía. E caindo, doía. E doendo, recuava. Eu nunca ia saber fazer aquilo. Nunca. Era simplesmente contra as leis da natureza. Contra as minhas leis, pelo menos, certamente era. Mas, ah, o vento… e aquela sensação de estar quase, quase, quase…

Final de férias. Minha prima maior assumiu o encargo. Uma pequena rua de terra batida, uma pequena ladeira, uma grande vontade de ir e aí… 

Fui! Como? Como aconteceu? O súbito equilíbrio veio de onde? Não sabia. Não importava. Ainda não sei. Importa menos ainda. Eu e a bicicleta éramos uma pessoa só e eu estava voando. Liberdade. Paixão. Obsessão. Não havia horas suficientes naquele primeiro dia para que eu andasse de bicicleta. E subisse a ladeira, e descesse a ladeira. Em alta velocidade. Cada vez mais alta. Feliz, feliz. Mas doeu. Muito. Doeu de pedalar demais, mesmo. Em outras vezes, muitas, doeu porque eu caí. Ralei. Sangrei. E eu ainda tenho um bocado de medo. De vez em quando, eu dou umas recuadas Mas eu sempre  acabo subindo na bicicleta de novo… Voar é preciso. 

The Side We Show. And The Other Side…

Have you ever taken embroidery classes? Stupid question. Of course not. Who does that, still, in this day and age? Me. I have. Back in the Eighties, when I was a child, in school. It was part of the curriculum. Along with some other things that, honestly, belonged to other centuries – which explains a lot about the unusual and misplaced person I have become, but that in itself is already another post… So, that was it. Embroidery. Classes every week. And a final work to go to an exposition by the end of the year. Every-single-year.

Needle, thread, wool. Another needle that was bigger and thicker. Another, still, that looked like a hook and it was meant for making carpets. Stitch for this, stitch for that. The right way to put the thread through the needle and move it inside out. Tight the stitch. In a certain measure. Too much, and it would get tensioned and wrinkled. Too little, it would get loose. I looked sideways. The one made by a classmate was moving faster than mine. And looking nicer. Oh, the hell with it. Either way, it would all end up in the exposition. All in there, lined up. Beautiful. Orderly. Who did those things? Who?

I haven’t thought about that in years. Don’t even know how many. But then, one day, I was scrolling through Instagram and bumped into an interview given by a dear, dear actor-friend of mine. How did you decide to be an actor? Oh, it was like this and that. I liked this, dreamed about that, went right, went left. And the writing, happened how? I noticed I had a way with it. Did such course. Was invited to don’t know what. Got the X award. Did the Y job.

It was the embroidery stuff. Right there. In audio, video, hashtags and comments. Beautiful, organized, perfectly alined… embroidery.  One stitch, then the other, and other. Pink, green, yellow, brown. Each thing in its own place, in its due order.

Show me the inside out! Show it! Show it if you have the balls! I don’t. But I do.

Flávia, how did you become a writer? Actress? Journalist? Resident of Tijuca, Rio, Porto, nowhere, your own home? Mother, aunt, god-mother, friend, unfriend, neighbour, ex-neighbour, neighbour once again, a person who loves Carnival, hates Carnival and noise, wants to travel the whole world, doesn’t want to leave the house, wants to love, a little bit, moderately, doesn’t want anything, no kind of love, ever again, love a lot, till I lose my breath and get purple and die, no, never ever die, but if die I must, maybe of something that takes the air out of me wouldn’t be so bad, the next novel maybe, never, never again am I to write a novel, started writing one just these days, but I’ve said never again, never is suuuuuuch a long time, and don’t have that kind of time… Ã?… What was it again that I’ve said? What? Where did it all begin? I don’t remember. I remember  absolutely everything. Don’t remember anything at all. I feel. Feel that I remember. Feel I remember that first time I saw that person, you know who? No? That’s the one. On the other side of the courtyard. Lost my breath. Didn’t. Don’t remember. Don’t know. Have no ideia. Where was I? Where?…

Where was my needle? Lost it. It was fine, I had a spare one. No, I didn’t. Didn’t know where it went. What now? I went to speak to the nun. She was busy. Wait there. Wait. I was snorting already. What a mess, what an out of control mess that damn piece of embroidery was. I was so behind… The noun sent me back. I should wait siting down. I did. But punched the desk. Softly. Discretely. And I said some crap. More softly. Even more discretely. Out of the room! Who has ever been expelled from a classroom for throwing a little, pathetic punch at a desk? I. I have. 

In the corridor, alone, staring at the stained glasses, I thought… How, in the name of the Lord, did I end up there… Had no ideia. Neither did the nun. What happened to you, Flávia? That’s not like you. And it wasn’t. Was it? Go figure… What is? What is “like someone”? Sorry, sister. That’s really not like me. Not al all. Super calm, me. Delicate. Perfect. Glacial. The maker of the best embroidery work, of all the works, ever to be made by anyone.

Got back to my place. New needle in hand. The perfect embroidery work with my name on it. Bullshit. Nobody cares. Perfect. Beautiful. Big-fat-lie. Only the side I show. The other side, in that state… Like everybody else’s. Worse, way worse, probably. Everything on top of everything, entangled, senseless, pointless, down there, where no one can, or want, to see. The exposition goes on. I’ve lost my needle. I am alone in the corridor. How did I end up here?…