O Tempo do Tempo…

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Quanto tempo leva pro tempo passar? Tipo… Um ano. Quanto? Não me venha com aquele número não. Trezentos e sessenta e cinco. Isso se refere aos dias. Falo de outra coisa… Tempo. Quanto?…

Muito? Pouco? Nada? Toda a eternidade? E isso é bom ou ruim? De quais anos da vida a gente acaba lembrando mais? Tudo o que é muito bom parece ter uma velocidade enorme e o que é ruim, o contrário?… Ou não? Quando você diz “esse ano passou voando” é porque foi aquele ano sensacional da vida ou há nesse dizer, na verdade, uma sensação de desperdício, talvez?…

Eu me peguei pensando nisso nas últimas semanas… E meu embate com a questão foi se alastrando. Ele, o tempo, está em todas as coisas…

Quanto tempo leva, por exemplo, para aprender a andar de bicicleta? Para aprender qualquer coisa? Pra escrever um livro? Pra fazer um bolo? Pra se recuperar de uma indigestão? De uma desilusão? De uma… qualquer coisa? E pra botar o papo em dia com a amiga? Aliás, falando nisso… Quanto tempo leva pra uma amiga se tornar amiga? 

E, já que eu entrei (ui!) no campo dos afetos… Quanto tempo pra alguém se apaixonar? E, depois disso, quanto tempo pra perceber? Pra aceitar? Ué… Mas tem isso de “perceber”? De “aceitar”? Bom, depende. Eu aposto que pra alguém feito o Vinicius de Moraes, tinha não. Mas… Pra outras pessoas?… Oh, man! Tem sim. Se tem! Isso e outras cositas más. E depois tem… o depois! Quanto tempo pra “desamar”?… 

Voltemos ao grande Vinicius. Essa parte eu acho que ele devia saber responder também, in no time. Ou não, como diria Caetano. Vai ver ele só acumulava. Um amor on top of the other… Vai saber… Eu nunca tirei o devido tempo pra pensar em nada disso. Bom… não importa. Ao menos espero que não. Eu sempre posso abrir uma aba neste computador e procurar uma luz na sua música, na poesia… Não vai existir tempo nesse universo que me faça cansar disso.

“Eu sei que vou te amar. Por toda a minha vida, eu vou te amar.”

Vinícius, o poeta do “que seja infinito enquanto dure”, o homem de uma nova paixão a cada esquina, escreveu a sua música mais famosa usando justamente a medida de… tempo. Na maior extensão possível. Por toda a vida. Ou, num outro verso, a própria eternidade… “A eterna desventura de viver à espera de viver ao lado teu”. Quanto tempo dura isso? Não a eternidade, claro. Mas a crença nela… A crença, sobretudo, me interessa. Você já chegou a ter isso? Por um segundo sequer? Eu tive?…

Chega. Não quero mais pensar em Vinicius. O ano está acabando e o poetinha começa a me chatear. Inveja é uma boa bosta! Ele viveu, bebeu, amou, escreveu, fez insanidades, e o diabo a quatro, mil vezes melhor do que eu jamais vou conseguir. Ok…  Vá lá… Acho que consigo bater o sujeito no quesito longevidade. Um dia. Tem alguma coisa lindamente errada com a minha genética, aparentemente. Eu fico mais saudável e com muito mais energia a cada ano que passa… para frente. E mais irritada ao olhar… para trás. A estupidez da juventude “prescreve” com o tempo? Se sim, quanto tempo ainda leva?… Se eu enfiar mais tempo bem vivido nos próximos tempos, isso compensa o tempo esnobado enquanto eu não via o tempo passar?

Eu desisto da questão. Vou dormir. Esse, um tempo muito bem usado. No sono, a conversa íntima entre você e você mesmo. A liberação dos desejos ocultos. A liberação de tudo. O voo de todos os sentidos. A ruptura de todas as amarras de espaço, de lógica, de… tempo. Quanto para uma noite bem dormida? Oito horas. Que se pareçam com alguns segundos. Mas te deem a sensação da eternidade – quando feliz. E dessa vez é. Eu sonho com o poetinha. Ele bebe água. Eu, vinho do Porto. Depois, um uisquinho. Em algum momento, um espumante. Vou ficando bem doida. O poetinha, só na água, sóbrio toda a vida, achando muita graça do meu pequeno porre. Só em sonho isso seria possível. Mas quem se importa? Ele me pergunta como estou de tempo.

“Vinicius… Sei não. Não tô mais enxergando o meu relógio”. 

Ele ri. Encosta pra trás numa cadeira de balanço… Ele sabe. Do tempo. Da vida. Da arte. Do amor. De tudo. Sabe e vai me dizer. Vai dizer. Vai…

Eu acordo. Já não estou mais com Vinicius. Nem de porre. Eu enxergo o relógio perfeitamente bem. E eu lembro do sonho. Lembro, mas não entendo… Quanto tempo eu tenho, afinal? Quanto tempo eu quero? Quanto tempo é preciso? Quanto?…

Tempo Suficiente

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Como eu vim parar aqui?

Esse, o pensamento que me veio enquanto eu tirava a maquiagem, diante do espelho do banheiro. Aqui no Porto. Agora. E lá longe, no Rio. E de volta.

Você pode se ver mudando se olhar bem fixo e fundo nos próprios olhos, por tempo suficiente. Sabia? Tempo suficiente… Quanto seria isso? Não me pergunte.

Anos. Meses. Dias. Horas. Minutos. Segundos. Tempos, tempos, tempos.

Eu tinha treze. Anos. E alguns minutos, que era sempre só o que eu podia ter. E mesmo assim, muito mal e mal. No único silêncio possível, o do banheiro, eu parei. Olhos nos olhos, diante do espelho, por tempo suficiente. 

E… eu mudei. Aos poucos. E de uma vez só. Num lapso de segundo. Susto. Quem era aquela? Como ela foi parar ali? Que coisa mais estranha. Medo. Bom… Fascínio, também. Curiosidade. Mas muito, muito medo. Medo demais. O que fazer?… Não tem problema. Um passo atrás, o olhar em outra coisa. Qualquer coisa. Ainda que  em você mesma, mas só o rosto. Ou mesmo os olhos, mas por fora. Só por fora. Pronto. É, de novo, só um espelho. E você é só você mesma, feito antes. Se afaste do espelho, saia do banheiro. No meio de todo mundo, por tempo suficiente, você até esquece.

Como eu vim parar aqui?

Eu pego o celular. E mando isso por escrito, em mensagem, à minha irmã, com quem eu tinha falado ao telefone pouco antes, feito todo dia, feito sempre. Há tempos, e tempos e tempos. Nunca, o suficiente. Eu podia ter ligado de novo. Tenho evitado as tais mensagens, em geral. Acaba me parecendo distante, limitado. Mas escolhi assim dessa vez. Eu tinha sido excessivamente próxima falando. E existem verdades que demandam alguma distância. Perspectiva. A palavra falada, para o presente. A escrita, para o infinito.

Aconteceu alguma coisa? Ela pergunta. 

Não. Não. Eu respondo. Só me veio isso, de repente, agora. De vez em quando vem. Um choque. Um susto. Sabe como? Uma realização de que minha vida não está, absolutamente, como eu tinha planejado. Você sente isso?

Sim, ela sente. O tempo todo. Ela acha que a maioria das pessoas, depois dos quarenta, sente. As que não, ou tiveram muita sorte ou não sabem. A ignorância é uma benção – minha irmã completa, os emojis chorando de rir, espalhados pela tela. Eu rio também. Muito. Porque a coisa toda é hilária, feito só as coisas mais tristes sabem ser. Eu rio e respondo.

Discordo. Eu digo. Não, escrevo. Discordo. Prefiro sofrer. Prefiro… Eu digo a ela o que eu prefiro, em termos muito reais e bruscos e engraçados e… bom…deselegantes demais pra esta residência aqui… Mas eu digo a ela. Ainda lá. Sentada, agora, mas ainda lá. Diante do espelho do banheiro. Ainda o lugar onde o silêncio é mais possível, mais duradouro. Eu digo a ela e olho, fundo, fundo. Por tempo suficiente. Onde é possível se ver mudando. Prefiro sofrer, respondo, de pronto. E… É verdade. Tão verdade que eu rio. É a mais pura verdade. Desde quando?… 

Como eu vim parar aqui?

Aos treze. Aos vinte. Vinte e cinco. Trinta. Trinta e três. Trinta e oito. Quarenta e dois. Quarenta e mais. Quantos a mais? Muitos. Todos. Eu paro e me olho. Me vejo mudando. Sigo olhando. Já não temo mais. Desde quando?… Não sei. Não importa. Agora é todo o tempo que há…

A Coisa Antes da Coisa Antes da Coisa Antes…

Gal morreu. A mensagem pulou na tela. Era da minha prima. Mas eu estava falando com outra pessoa. Falando sobre não falar. Não. Isso ia ser depois. Mas já estava pensando. Antes. Agora era sobre um cansaço enorme. Eu não tinha dormido. Falar sobre não falar era meu assunto. Mas minha prima apareceu. Gal morreu.

Oi? Como assim? Falar sobre não falar era coisa de antes, mas ficaria pra depois. Abri o jornal. Ali, a notícia. Sim, Gal morreu… Antes, horas antes. Mais horas, na verdade, porque o fuso me faz dessas… Tenho sempre mais horas antes das horas… E nelas, tinha acabado de ver Gal. Cantando “London London”. Nem sabia por quê. Não importava. Eu estava no YouTube. Cliquei. Parei pra ver e ouvir Gal. “I’m wandering round and round, nowhere to go…”. 

Round and round… London london… Falar não falar… A circularidade de todas as coisas me irrita profundamente. E me fascina. É inevitável. É exaustivo. Pra mim, é. Eu, a que teima girar o disco ao contrário já sabendo que estraga a música. A dança. A vida. A coisa toda. Mas mesmo assim. Deixa o disco rodar e tocar direitinho, Flávia. Do início ao fim. Faz favor?…

A campainha toca. Antes. Muito. Quase trinta anos antes. É natal. Minha tia e minha avó. Eu corro pra porta. Ooooooiiiii. Eu não estou igual à Gal Costa? Está! Fiquei toda prosa. Eu, de branco, de alcinha e renda, o cabelão preto que eu tinha passado o dia todo trançando molhado pra soltar tudo depois e fazer aquele onduladão cheio de volume. Eu, a própria Gal. Por uma noite. Era o máximo! Agora faz o batom vermelho também, Flávia. Falta o batom… Não, não… Falta tudo, gente! Gal é Gal. A boca, a voz, o ímpeto, a coragem, o sei lá o quê que a pessoa exala que toma qualquer espaço por inteiro e ainda sai transbordando. Duvido, duvido ela fosse das que gira disco ao contrário. Duvido ela fosse de falar sobre não falar…

“Eu só faço o que eu quero”, eu a vejo dizer no Roda Viva. Antes. Depois. Agora. Tenho certeza que sim. “Ela é tão bonita que, na certa, eles a ressuscitarão”. Gal morreu. Mas eu a quero viva. Pra tudo. Pra todos. Ok… Mais pra mim mesma. Pra me dar umas aulas. Feito só os grandes podem dar. O que ela diria se fosse tipo uma amiga e pudesse me ver agora? Eu dou play. Ela responde. “Sua estupidez não lhe deixar ver”… Touché, Gal. Touché. Estupidez. O disco segue girando. Que coisa linda. Tudo. A arte, essa coisa mágica que toma formas, que parece sempre ser feita só pra nós. Exclusivamente. Sob medida. A arte, que vai te achar no dia certo, na hora exata.

“Você precisa aprender o que eu sei…”. Preciso mesmo. E tem dias que parece que vou. Mas acabo não indo. Não dura. Murcha. Feito meu cabelão cheio de volume “fake”. Feito o batom vermelho que não sei usar. 

Play. Deixa o disco tocar, Flávia! Pra frente. Até o final. Play. Gal menina, Gal madura. Cabelo curto, cabelo longo. Vestida, desnuda. Linda, linda, linda. Melódica. Frenética. Alegre. Carnavalesca. Brasil. Tão Brasil. Antes. Agora. Sempre. Vai ter que dar, vai ter que dar. O Balancê, balancê. Entra na roda, morena pra ver. Ao fundo do fim. De volta ao começo. É preciso estar atento e forte. Não temos tempo de temer a morte. 

Ai ai… Play. Mais um. E sair pela porta, que tenho hora. Gal e sua aparição me encaram. Antes. Ontem. No cinema, entre os Doces Bárbaros. Do outro lado do mundo. Aqui, no Porto. O filme acaba. Nós aplaudimos. Porque ela está ali. Forte. Doce. Gal. Se ela fosse tipo minha amiga e me visse agora, depois da estupidez, o que ela diria? Play. O último. Antes da coisa que vem antes da coisa, feito todas as coisas são. Circulares. Exaustivas. Perfeitas. Antes. Agora. O que ela diz? Não se afobe não, que nada é pra já. Baby, eu sei que é assim… 

De Propósito

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A voz de Milton Nascimento invade a casa que ainda não é. O espaço, ao que virá. O caminho de volta, ao que já foi. 

Tudo cheira à morte. Vida. Amor. Sangue. Mistério. Tudo, uma coisa só. Tudo, em opostos inconciliáveis. É preciso separar. Escolher. Eliminar. Absorver. Dessa vez como nunca antes, porque… de propósito. Milton, a voz da eternidade, sabe todas as coisas. Eu não. Não sei. Nada. Menos que nada. Dessa vez, de propósito. 

Faz diferença, isso? Faz. Toda. 

“E assim, chegar e partir são só dois lados da mesma viagem…”

São só dois lados. Sim. 

Faz diferença? Faz. Toda.

Eu me visto. Eu me dispo. As roupas que vão ao chão. As que cobrem uma nudez sem pressa, sem calor, sem frio, sem pudor. Como nunca antes. Um tanto faz específico, intransigente, supremo. O que já não serve é muito e precisa ir. Então, eu separo as roupas. As cartas. Os documentos. O passaporte. 

E penso. Na minha avó. Falando de amor. Antes, muito antes… enquanto eu, agora, silencio o amor em mim mesma. Dessa vez, de propósito. E minha avó, antes?… Ela falava, eu ouvia. Por acidente.

Minha filha, os casamentos já não duram porque todo mundo é independente. Ninguém mais quer aturar nada.

Ela dizia isso como se fosse uma coisa negativa. Pra ela era mesmo, ora.

Minha filha, o problema da sua irmã é ter roupa demais. No meu tempo a gente tinha a roupa de casa, o uniforme da escola, uma roupa de festa. E só.

Minha filha, agora todo mundo faz dieta e vai pra academia. Todo mundo vive com medo de engordar. No meu tempo, a gente tinha que andar, pegar no pesado e não tinha essas facilidades, essas comidas prontas… Você queria um bolo? Tinha que fazer. Pronto. Pesei a mesma coisa minha vida toda. Nunca nem pensei nisso.

Verdade. Ela, sua cinturinha de pilão e suas pernas fabulosas nunca souberam o que era uma bicicleta ergométrica e, definitivamente, nunca ouviram a palavra “pilates”.

Ter escolhas. Esse, o problema. Na ausência de abundância e variedade, a falta de drama. Noves fora, vejamos… Na falta de opções, a “felicidade”. 

Ela dizia isso como se fosse uma coisa positiva. Pra ela era mesmo, ora.

A vida sem opções lhe foi gentil. O amor lhe sorriu. O conforto. A abundância. A boa saúde. A casa. A vida. A cinturinha de pilão e as pernas fabulosas. Por acidente. Tudo, tudo. Até que… Não mais. 

Estou cansada. Não sei como vim parar aqui. Essa casa, esse corpo, essa vida… Nada, eu reconheço. Como?… Ela diz, sem palavras. Provavelmente sem pensamentos, tampouco. Por acidente, tudo chegou. Por acaso, se despediu.

“O trem que chega é o mesmo trem da partida. A hora do encontro é também despedida.  A plataforma dessa estação é a vida…” 

Eu digo essas coisas à minha avó. Ela não me escuta. A conversa acontece na minha memória, por acidente. E nesta semi-ficção, de propósito. Na vida real, frente a frente, nós duas, ainda respirando o ar no mesmo planeta, a conversa acontece?… Não sei. Acredito que não. Há palavras que não devem ser ditas por acidente. Mas silenciadas, por amor. De propósito. 

About… Uniqueness

photo by: Flávia Ruiz

Paradox. 

If I had to choose a word for life today, this would be it.

Paradox.

For everything that is alive seems to be bound to this inescapable – and so very elusive -balance between two (apparently) opposite extremes. The fact that we must not run around in fear of losing opportunities and the truth about… Well… Uniqueness.

And there it is… Paradox. Yet… Somewhere in the middle, there seems to be a sweet spot, a  form of perfection, a genius, per se, that keeps escaping me – for I am just one more limited, imperfect human searching for the infinite while I must, also, conform to limitations.

And as I think upon that and prepare to go out into to the world and live the best day I can menage, I look at this photo I took a year ago and realize how it almost didn’t happen… And how it (probably) never will… again. 

The way the sun came down on that statue (my favorite one, the one that represents autumn), like a divine shower of light. The angles. The visual poetry of it… Breathtaking. I took one look at that scene and it hit me…

This is one of those moments. I must seize it. Run, Flávia, run – I told myself. Because I had only a tiny fraction of time. An extremely narrow window of opportunity that would close within seconds. And so, in that moment, I was able to listen. To follow through. To give my best shot despite the fear of it. Yes, fear! Because… Let’s be very honest for a second… What is more painful than not having what you want?… 

I think you know the answer to that. Yes… What is more painful, a lot more is…

To almost have it!

To allow yourself to believe that the thing you want – or see or desire or love… that vision of a dreamlike version of your own universe… whatever that might look like to you in a moment of your life experience… To allow yourself to go for it, nearly touch it and… then… feel it drifting away from you… There are no words to describe, fully, the terror this  notion can impose on us – though, mostly, in such a unconscious way that we are able, for the majority of time, to go about our lives disguising this fear as “laziness”, “caution” , “procrastination” or other, less dramatic, feelings. I know how that goes… I have done it myself. Many, many times.

But not on that day. 

On that day, for some reason, I was more awake, faster, braver.

On that day, I exposed myself to wanting really bad to capture that heavenly image on camera, so that I could always remember what it felt like. And so I ran. I angled. I took a shot. And… I got it!

A couple of seconds later, there was no light to be seen there. The window had closed.

It’s been precisely one year since I took this photo. I still go into that park almost everyday. At that same time. And I always look at that very same spot to see if the light will come again. 

It hasn’t yet…

It was… Unique.

Fui…

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Homem morre ao jogar o próprio carro de uma ponte que já não existia mais, há anos, guiado pelo GPS.

Essa foi mais ou menos a manchete de uma notícia que li hoje cedo. Não foi a primeira. Não vai ser a última. 

Tem também a história da pessoa que morre fazendo uma selfie de situação encenada.

A moça que se apaixona por um homem que não existe, num site de relacionamentos.

O homem que mantém um caso de amor estritamente virtual, há mais de quinze anos.

A mulher que inventa um negócio fictício on-line (sem golpe financeiro, veja bem… Só pela fantasia mesmo) com direito a reuniões virtuais e contratos assinados via correio. 

Substitutos. Eles sempre existiram. Que ótimo, aliás. Nós, humanos, afinal, somos bem frágeis e patéticos em muita coisa. Mas, boy oh boy, como nós somos bons em nos adaptar. Em criar soluções e “muletas” para contornar adversidades, impedimentos temporários. Em… bom… inventar os tais dos “substitutos”. 

Pense férias de verão no campo, com a família… Nem muito tempo atrás, não. Três, quatro décadas, no máximo. Já tinha um bocado de tecnologia. Luz elétrica, mesmo na roça das roças. Rádio. Televisão. Mesmo assim… 

Fazendo sol, a gente passava o dia fora. Pique-esconde no quintal, corridas de bicicleta pelas ruas de terra batida, caminhadas intermináveis só pra tomar uma casquinha de sorvete ou comprar um gibi, piscina na casa da tia uns quarteirões pra baixo e depois voltar todo mundo pingando água pelo caminho – ou banho de mangueira mesmo quando não tinha piscina nenhuma.

Mesmo à noite, a gente saía. Em grupo. Minha avó, as tias, os primos todos. Um ponto de luz ou outro dos postes, a luz da lua, linda linda… Os vaga-lumes, o cheiro de mato, o barulho dos bichos noturnos e… nossas vozes. Todos juntos, a gente ia conversando, rindo, falando besteira, discutindo também, às vezes. Claro.

Se chovia?… Substitutos. Bem legais. Jogos de cartas. Pipoca. Jogos de tabuleiro. Pipoca.  Adedanha. Pipoca. Pregação de peça nos inocentes. Pipoca. No fim da noite, algum filme do Spielberg daqueles bem apavorantes, que sempre passavam na televisão. E, claro… Pipoca. 

Acabou a luz?! Mais alguns substitutos, com o auxílio de um lampião e algumas velas. A gente até sentia falta da TV, mas o climão, as sombras, o ar de mistério compensavam largamente. De vez em quando era bom! Se tivesse raios e trovões ao fundo, então… Uau. Era como um dos filmes do Spielberg bem ali, na nossa vida real. A gente fazia uma quase uma realidade paralela, viajava na imaginação, criava personagens, aproveitava também pra sonhar com o paquerinha que estava longe e “trabalhar” na trocação de cartas e bilhetes de amor.

A chuva uma hora passava. A noite virava dia, mais uma vez. As férias chegavam ao fim. A fase de paquera fantasiosa e  das cartas evoluía para o dançar juntinho na festa, andar de mãos dadas, pegar um cinema e dar o primeiro beijo no escuro, uns outros tantos no claro mesmo, ficar pendurada no telefone e, um dia, perceber que não era essa coca-cola toda, terminar tudo e ir dormir chorando pra depois acordar pálida e inchada. Jurar que nunca mais. E começar tudo de novo. 

O sol, a chuva. O dia, a noite. O período de aulas, o de férias. O real, o imaginário. O concreto, o substituto. A dança, caótica, sim; mas também harmoniosa, do seu próprio jeito, entre todos os elementos que iam tecendo uma coisa chamada… vida. Sem que precisássemos sequer nos dar conta disso, sem que fosse uma preocupação mas, apenas, um fluxo – onde cada coisa tinha seu lugar e sua hora. Ciclos. Natureza. Multiplicidade. Experiências. Riqueza.

E aí… Alguma coisa aconteceu… Os substitutos, as muletas, os artifícios foram se multiplicando. Ganhando espaço. Muito. Muito. Muito. Demais. A dança… desandou.

Quando foi que a muleta começou a parecer melhor do que as pernas? 

Que sonhar deixou de ser apenas a etapa inicial e virou a história inteira?

Que ser um personagem numa tela tomou o lugar da busca por uma existência completa e plena, no mundo real?

Que o que te diz a voz robótica do GPS te parece mais factível do que o que dizem os seus próprios olhos e sentidos? 

Quando foi, enfim, que abrimos mão de ser matéria e, surprise-surprise, ao fazer isso parecemos ter perdido… o espírito?…

Mãos ao volante, olhos na estrada, meu verdadeiro GPS me dá um alerta… A ponte não existe. Não está lá. Não vai me ligar a coisa nenhuma. 

Não, obrigada. Eu dou meia volta. Desligo tudo. Bato a porta. Estou fora. Minhas pernas, meus olhos, meu coração, meu espírito agradecem. Fui.

Sometimes

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Sometimes you go 

So you can stay

For as long as it takes

Like eternity

In a second

As a first kiss 

That never happened

Sometimes…

Olhos de Ver

Eu estava voltando de um passeio com a minha filha quando vi a cena. 

A pessoa. O chão. O sangue. 

Vi. Mas não vi. 

Eu estava só voltando do passeio. Faço isso sempre. 

Há uma sequência estabelecida. 

Minha pernas andam, meus pulmões respiram, meus olhos olham. O portão verde da vila, o pequeno corredor se segue. Os jardins. Girassóis, rosas, camélias, copos de leite. Silêncio. Sequência.

Levanto os olhos. Céu azul. Baixo os olhos. As casas, as janelas, as roupas penduradas, uma das vizinhas. A mais velha, mas que tem carinha de criança. Sequência. 

Ela me lembra minha avó materna. Nisso de parecer criança. Me olha com uma expressão de afeto e alegria, sempre. Eu sorrio pra ela de volta, sempre. Boa tarde, boa tarde. Sequência. 

Como está a menina? Muito bem, graças a Deus. Sequência. Não. Não aconteceu dessa vez. Só silêncio. Parei no sorriso. Tem alguma coisa errada aqui. Alguma coisa…

Eu não vejo logo. Vejo. Mas não vejo. Ela está me olhando meio que como sempre. Mas… ela está… sentada no chão. No chão!… Ela devia estar no chão? Acho que não. Tem alguma coisa errada aqui. Alguma coisa…

Meus olhos procuram. E encontram… Sangue. Eu, finalmente, vejo. Corro. 

Ok, ok. Levanta, apoia, leva pra dentro. Dá pra ficar em pé? Ok, ok. Respira. Vai ficar tudo bem. Toma um pouco de água. Isso. Essas coisas acontecem. Vai ficar tudo bem. Eu baixo os olhos… Como eu não vi logo? Vi mas não vi. Como?!… A sequência muda. A lógica tropeça. A previsibilidade falta. É possível ver o que não se espera? O que não está no repertório?… Os olhos de ver não funcionam.

Pra casa… Eu ajudo minha filha a se vestir. Tem uma coisa escrita na blusa. Uma linda, linda frase de amor, em francês. A blusa já tem dois anos. Eu nunca vi a tal frase.

Pego a calça legging. A que é toda florida, que vovó deu. Tem passarinhos ali, no meio das flores… Passarinhos e borboletas. Azuis. Ué?… Como assim?… Não eram só flores?… A calça tem o dobro da idade da blusa. Nunca vi os bichos que voam ali. Nunca. Como pode?…

Terminei esses dias um conto sobre um pássaro azul. Sobre voo. Sobre liberdade. Sobre amor. Sobre descoberta. Sobre… Ver. Não porque eu tenha determinado assim. Porque levantei um dia e inventei um pássaro azul. Não. Porque aconteceu. Porque… Bom… Porque vi o pássaro. E o deixei ter vida em palavras. E então… O pássaro agora existe. E eu o vejo na roupa da minha filha. 

Como eu não o vi antes? Como? 

Os olhos de ver não funcionam.

Preciso sair. Ver o céu. Ver o Douro. Ver a Ponte. Ver o Porto. Ver… Essa rua esteve sempre aqui? Essa frase escrita no muro? Esse rosto pintado na janela? A planta vermelha escorrendo porta acima da casa em ruínas? O choro em versos no poste do cruzamento?… 

Eu abro os olhos. Escolho um ponto. Forte. Fixo. 

Me obedeçam. Me obedeçam. 

Não.

Volto pra casa. Dou com o espelho. Olhos nos olhos. Respiração. Pulso. Espanto. Sentimento. Cegueira.

Flávia…

Me obedeça. Me obedeça. Me obedeça.

Não.

Palavras…. E Mágica

Eu tenho chorado ao escrever.

Quando eu escrevo de verdade. 

O que tem sido cada vez mais frequente.

Contos e crônicas, sim. Roteiros, também. Mas, sobretudo, quando eu estou, apenas, “eu-mesma”. Eu como eu. Sem narrador. Sem personagens. Sem plot. Só… Eu. E-mails, mensagens, journaling. Muito, muito mais, inclusive, nos dois primeiros casos. Suponho que seja porque existe alguém do outro lado. E eu sei disso. 

Palavras são coisas tremendamente poderosas. Palavras com destino? Muito mais ainda. Então eu as escrevo. E aí… Choro. Aquele choro que dói. E surpreende. Porque eu  também penso nessas coisas. Só penso. As mesmas coisas. Penso com clareza, com honestidade, com absoluta transparência mesmo. Mas, nesse caso… As palavras apenas pairando, lá em cima, na minha mente?…Tudo bem. Às vezes algum desconforto, alguma angústia, os olhos meio úmidos aqui e ali. As mesmas palavras escritas? Pra outra pessoa ler?! Me passem a caixa de lenços, my darlings

Nem sei como não me dei conta disso antes. Eu, a pessoa que já fez um bocado de psicanálise. Eu, a comunicadora, a pessoa de teatro, a jornalista, a roteirista, a escritora… Falar e escrever sempre estiveram no centro da minha vida. No entanto… Só agora eu realizo realmente o poder inalienável dessas duas coisas. Talvez porque só agora eu esteja me dispondo, mesmo, a baixar a guarda e levantar as questões, all the way. Ir tocando aqui e ali. Porque é isso que as palavras fazem. Tocam. E se estiver tudo bem ali, ok. Se não… Dói. E como dói. 

Feito você fosse pressionando os dedos na própria pele… Os dedinhos… Tornozelos… Joelhos… Um pouco pro lado… Um pouco pra cima… Ai. Nossa. O que é isso aqui? Você olha e lá está: tremendo hematoma. Onde, onde, onde você trombou que machucou tão fundo e feio?… Onde? Quando? Por que? Importa, realmente? O fato é que dói. Ai, como dói. As palavras vão saindo. As lágrimas vão escorrendo. Parece não haver fim nem pra umas nem pra outras. Que cansaço. Exaustão mesmo. Como se tivesse dado a volta ao mundo correndo. Não consigo mais. Silêncio.

Eu faço um chá quentinho. Ligo um negócio qualquer pra ver. Nem sei direito o que é. Até o sujeito falar em… palavras. Tudo, tudo na vida humana, ele diz, é feito através de palavras. Contratos, promessas, declarações. Amor e desamor. União e ruptura. Guerra e paz. No universo da fantasia, como são feitos os encantamentos e maldições? Com palavras. Elas, sempre elas. A própria matéria-prima da mágica. Não, não só pairando em algum lugar secreto e abstrato, lá dentro da sua cabeça. Não. As palavras no mundo externo e concreto. No papel ou na tela, como desenho, como matéria. Ou faladas, na forma de som. A mágica produzida pela transmutação de um estado ao outro tendo você como veículo, origem e destino. Tudo ao mesmo tempo agora. Haja coração. Coragem. Paciência. Lenços.

Meu chá está esfriando. Eu respiro, respiro… respiro. Tomo mais um golinho. Descanso. Tantas palavras que eu não deixei vir ao mundo pra fazer mágica. Mesmo essas transmutam agora, de todo jeito. Viram lágrimas. Mas outras virão de outros jeitos. Muitas. Todas. Eu juro, palavrinhas, que nunca mais deixo vocês no limbo das coisas não escritas, não faladas, não sentidas. Juro.

Hocus pocus. Abracadabra. Alakazam.

F…

Tem coisas que a gente não entende quando muito jovem.

Coisas feito memória. Tradição. Símbolos.

Minha família tinha o hábito de dar pequenas joias de presente para marcar ocasiões.

Nasce alguém… Joia.

Batizado… Joia.

Quinze anos. Noivado. Casamento. Aniversário de casamento… Joia.

Eu nunca pensava em nada disso.

Não me importava. 

Eu não entendia. 

E… Bom… Parecia meio deslocado de tempo e espaço.

Quem ia usar joia no Rio, na minha geração?

Eu era uma criança. 

O brinco de plástico em forma de picolé, vermelho, da coleguinha de classe, tinha mais apelo pra mim. Não que eu fosse usar. Não podia. Tinha uma alergia feroz. Ainda tenho. Qualquer coisa que não seja ouro (ou aço cirúrgico, descobri recentemente), meu corpo rejeita. Doença de gente rica e fresca, você pode dizer. 

Ironicamente, não sou nem uma coisa nem outra. Muuuuuuito pelo contrário. Eu sou a poster-girl do manual do artista duro e despojado. Tô nem aí pra nada. E quando eu penso em dinheiro eu penso em… Livros. Ou filmes. Ir ao teatro mais vezes. Viajar? Oh yes. Mas bem simples. De trem. De classe econômica.  Ficar em hotel desses que você carrega a própria mala, always. Eu gosto que a cama seja fofa, o banheiro seja limpo, a água seja quente. Mais do que isso?… No, thanks. Detesto. Acho luxo uma coisa tão tediosa. E… sei lá… anti-estética mesmo. Cafona. Over the top. Feito um bolo delicioso que alguém estraga por botar merengue demais por cima.

Enfim… Família. Lembranças. Joias.

Eu não entendia. 

Mas aí… O tempo. O espaço. 

Eu deixei o Rio. Mudei pro Porto. 

Anos, anos e anos. E um oceano inteiro in-between.

Aqui joia não é nada demais. Todo mundo usa. Ou não. Mas não importa. Ninguém acha que vai ter a orelha arrancada por causa de um brinco que nem é realmente “valioso”. A joia volta a ser apenas o que sempre tinha sido: uma lembrança. E eu lembro…

Uso o anel pra passear com meu avô. E o eu vejo botar a joia no meu dedo pela primeira vez, over and over again, toda vez que baixo os olhos pra minha mão direita.

Uso os brincos de aço que minha mãe me trouxe, lembrando que eu gostava deles longos, mas tinha deixado de usar ao me tornar mãe e aí… Passeio com mami. E com a eu-mesma que tinha esquecido na gaveta.

Uso minha correntinha e trabalho com meu pai ao lado. A correntinha e o F – que foi pensado pra ser de Flávia, mas eu faço dele outras palavras. Tantas.

Pai… Sonhei contigo hoje me trazendo meu brinco de brilhantes com a tarraxa consertada. E aí lembrei do F. Não usava há anos. Foi você que me deu, não foi?

Foi, sim, filha. 

F. De filha. Mais uma palavra pra eu usar andando por aí. Ou F de friend, que é o que sou mais, na verdade, de pai, de mãe, de todos. E eu gosto de ser assim. Eu acho que é…. Fundamental. Fabulous. Fun. 

Seu tataravô fez amizade com um ourives cujo apelido era Pulego. E aí…

Meu pai me conta toda a história. Eu sabia do Pulego. Ouvi esse nome muitas vezes quando menina. Mas não sabia o resto. Tão, tão interessante…. Daí vinha o hábito das joias. Como marcadores de memórias. Intocadas pelo tempo. Carregadas de significado.

Eu abro o porta-joias. Escolho uma pessoa e um momento pra passarem o dia de hoje comigo. Do outro lado do Atlântico. O mesmo lado de onde veio o tataravô que começou a história toda. O homem que eu nunca cheguei a conhecer mas que é responsável, em grande parte, pelo cordão no meu pescoço hoje, um século depois.

Tem coisas que a gente não entende quando muito jovem…

Tempo. Tradição. Lembranças.

F…

De família.

Forever.