O Lado Que Mostramos. E O Outro Lado…

Você fez aula de bordado? Pergunta estúpida. Claro que não. Quem faz aula de bordado ainda, neste mundo? Eu. Eu fiz. Em plena década de oitenta, quando era criança, na escola. Fazia parte do currículo. Junto com algumas outras coisas que, francamente, pertenciam a outros séculos – o que explica muito sobre a pessoa algo anômala e deslocada de tempo que eu me tornei, mas isso já é um outro post… Enfim, era isso. Bordado. Aulas toda semana. E um trabalho a fazer para ir para a exposição da escola no final. Todo-santo-ano.

Agulha, linha, lã. Outra agulha que era maior e mais grossa. Outra ainda que parecia um gancho e servia para fazer tapetes. Ponto disso, ponto daquilo. O jeito certo de colocar a agulha na linha e passar pra lá e pra cá. E fazer o ponto. Numa certa medida. Demais, ficava repuxado e enrugado. De menos, ficava frouxo. Eu olhava pro lado. O da coleguinha estava indo mais rápido que o meu. E ficando mais bonito. Ah, que se danasse. De todo jeito ia tudo parar na exposição. Tudo ali, enfileirado. Lindo. Em ordem. Quem fazia aquelas coisas ali? Quem? 

Eu não pensava nisso há anos Nem sei quantos. Mas aí eu estava um dia desses no Instagram e dei com uma entrevista que um amigo muito muito querido tinha dado. Fulano, como você decidiu que ia ser ator? Ah, foi assim e assado. Eu gostava disso, sonhava com aquilo, fui aqui, fui ali. E escrever, aconteceu como? Eu vi que tinha jeito pra coisa. Fiz o curso tal. Fui convidado pra não sei o quê. Ganhei o prêmio X. Fiz o trabalho Y. 

Era o bordado. Bem ali. Em audio, vídeo, hashtags e comentários. Um lindo, organizado, perfeitamente alinhado, bordado. Um ponto, depois outro, outro. Rosa, verde, amarelo, marrom. Cada coisa em seu lugar, na devida ordem.

Vira do avesso? Vira! Vira se você tem coragem! Virei.

Flávia, como você se tornou escritora? Atriz? Jornalista? Moradora da Tijuca, do Rio, do Porto, de lugar nenhum, da sua própria casa? Mãe, tia, dinda, amiga de Fulano, desamiga de Beltrano, vizinha, ex-vizinha, vizinha de novo, pessoa que ama Carnaval, odeia, odeia Carnaval e barulho, quer viajar o mundo todo, não quer sair de casa, quer amar, um pouquinho só, moderadamente, não quer nada, nada, nenhum tipo de amor ever again, amar muito, de perder o ar e ficar roxa até morrer, não, não morrer nunca, jamais, mas se tiver que morrer, talvez de alguma coisa que tire o ar não seja má ideia, o próximo livro talvez, nunca, nunca mais vou escrever livro, comecei a escrever livro novo esses dias, mas eu disse que nunca mais, nunca mais é taaaaanto tempo, eu não tenho esse tempo todo… Ã?… O que foi mesmo que eu disse? O que? Onde isso começou? Eu não lembro. Lembro de absolutamente tudo. Não lembro de nada. Sinto. Sinto que lembro. Sinto que lembro a primeira vez que eu vi aquela pessoa, sabe quem? Não? Pois é. Do outro lado do pátio. Vi. Perdi o ar. Não perdi. Não lembro. Não sei. Não faço ideia. Onde eu estava? Onde?…

Onde estava a minha agulha? Perdi. Tudo bem, eu tinha uma reserva. Não tinha. Também não sabia onde tinha ido parar. E agora? Fui falar com a freira. Ela estava ocupada. Espera aí. Espera. Eu bufando já. Que bagunça, que bagunça incontrolável já estava o diabo do bordado. E tão atrasado. A freira me mandou de volta. Que eu esperasse sentada. Sentei. Mas soquei a mesa. De leve. Discretamente. E falei alguma porcaria. Baixinho. Mais discretamente ainda. Fora de sala! Quem é expulsa de sala porque dá um soquinho de nada numa mesa? Eu. Eu fui. 

No corredor, sozinha, olhando os vitrais, eu pensava… Como, em nome do senhor, eu tinha ido para ali… Não fazia ideia. A freira também não. O que é que houve com você, Flávia? Você não é disso. E não era. Era? Vai saber… E quem é? Quem é “de alguma coisa”? Desculpe, irmã. Eu realmente não sou disso. Não sou. Super calma, eu. Delicada. Perfeita. Glacial. A dona do bordado mais bem bordado de todos os bordados.

Voltei pra minha mesa. Agulha nova em mãos. O bordado perfeito com meu nome embaixo. Bullshit. Ninguém se importa. Perfeito. Lindo. Mentira. Só o lado à mostra. O avesso, daquele jeito… Feito o de todo mundo. Pior, bem pior, provavelmente. Tudo por cima de tudo, embolado, sem nexo, nem direção, lá atrás, lá, onde ninguém pode, nem quer, ver. A exposição segue. Perdi a agulha. Estou sozinha no corredor. Como eu vim parar aqui?…

The Year of No Survivors…

And then 2020 had started. I spent New Years Eve at home. Thousands of people out on the streets here in Porto. Could I have done it too? Absolutely. But I chose to stay in. I’m not one for big parties in such occasions. A nice dinner, music, my very loud family around me, a great movie after midnight, all that I enjoy. Here in Porto I couldn’t have some of those things. The family is on the other side of the Atlantic. But dinner was on. So was the movie. Then go to bed wishing for a better year. We know it’s out of our control but, what the hell, we’re only human. And wishing is free. 

Soon after, January. My birthday. I usually take a few hours for myself, indulge in a lonely movie theatre session, think about my life. Again, I wish for a nicer period of time ahead. It’s still free and I am, well, still human. So, on that January 13 of 2020 I basically did all of that. But, I don’t know… I was in a bad mood. An uncomfortable feeling. And old. So old. I walked down the freezing park. It’s nothing. It’s nothing. Focus on the work. Write. It’ll pass. It won’t pass. But it will pass.

It was passing. Time. Not the other thing. Always there. I started reading more and more, on the papers, about the new virus that was spreading. I thought about H1N1. Maybe we’ll see some of that again and ok. Life goes on. We survive.

February came. I started to try and buy face masks and hand sanitizer . They were nowhere to be found here in Porto. I walked everywhere, even under the rain, to avoid public transportation, opened doors with a handkerchief, wouldn’t let anyone come too close. That oppressive feeling somewhere inside myself, somewhere I couldn’t tell, in some dark room to which I didn’t have the key. Life goes on. We survive.

March. Locked in the house. Fever and pain and exhaustion. My eyes deep, so so deep and shadowed. An out of control heartbeat. A fear in the dark. Of the disease? No. I never really thought it was going to complicate itself, least of all that I was going to die. The other thing. The thing at the end of some corridor in me, in that room to which I didn’t hold the key. A mortal fear. The disease went away. Work to do, relocation to deal with, daughter to take care of, screenplay to finish. Life goes on. We survive.

The months came and went. Lockdown on. Lockdown off. Old job coming back. New gig coming around. Life almost normal. The dark room down there, looking at me. The key?… The key?… I didn’t wanna know. It didn’t matter. Wake up, work, sleep. Wake up, work, sleep. Wake up. Wake up. Wake up!

I sat up on the bed. Gasped for air. That dark room cracked opened right there, lit up and magnified, hurting the thousand eyes I don’t even have, yelling at me, loud and mad, unforgiving, like a never-ending slap on my face. And it all got shaken to it’s core. And it all came crashing down. So, so many things locked up in there for such a long time. For all times.

Where was I while it was happening?… Waking up. Sleeping. Working. Walking down the park. Working. Sleeping. Sleeping. Sleeping. Until I just couldn’t sleep anymore…

A year called 2020 came by. And life does go on. But there are no survivors.

Um Ano Sem Sobreviventes…

Então 2020 tinha começado. Eu passei a noite de Ano Novo em casa. Milhares de pessoas nas ruas, aqui no Porto. Eu podia ter saído? Podia. Mas escolhi ficar. Não gosto de grandes festas nessa data. Um jantar legal, música, minha ruidosa família em volta, um filme depois da meia-noite, isso tudo eu gosto. Aqui no Porto eu não podia ter algumas dessas coisas. A família está do outro lado do Atlântico. Mas o jantar estava de pé. O filme também. E depois dormir torcendo por um ano melhor. A gente sabe que está fora do controle mas, what the hell, somos humanos. E torcer é de graça.

Logo depois, janeiro. Fiz aniversário. Costumo tirar umas horas, me dou uma sessão de cinema solitária, penso na minha vida. De novo, torço por um período melhor em seguida. Continua sendo de graça e eu, well, continuo sendo humana. Então, naquele 13 de janeiro de 2020 eu fiz basicamente isso tudo aí. Mas, sei lá… eu estava de mau humor. Uma sensação incômoda. E antiga. Tão antiga. Fui caminhando pelo parque gelado. Não é nada. Não é nada. Foca no trabalho. Escreve. Vai passar. Não vai passar. Mas vai passar. 

Foi passando. O tempo. A outra coisa não. Sempre lá. Eu comecei a ler com mais frequência nos jornais sobre o vírus novo se espalhando. Pensei no H1N1. De repente vamos ver aquilo de novo e ok. A vida segue. A gente sobrevive.

Fevereiro veio. Comecei a tentar comprar máscaras e álcool gel. Não tinha. Em lugar nenhum mais aqui no Porto. Eu caminhava para os lugares, mesmo na chuva, para evitar transporte coletivo, abria portas com lenço de papel, não deixava ninguém chegar tão perto. Aquela sensação opressora em algum lugar de mim mesma que eu não sei dizer, num quarto escuro do qual nem eu tinha a chave. A vida segue. A gente sobrevive.

Março. Trancada em casa. Febre e dor e cansaço. Olhos fundos, tão tão fundos. Uma pulsação fora de controle. Um medo no escuro. Da doença? Não. Eu nunca achei que ia complicar, muito menos que eu ia morrer. Outra coisa. A coisa no fundo de um corredor em mim, no quarto do qual eu não tinha a chave. Um medo mortal. A doença foi me largando. Trabalho pra fazer, mudança de casa pra lidar, filha pra cuidar, roteiro de filme pra terminar. A vida segue. A gente sobrevive. 

Os meses foram todos indo e vindo. Fecha tudo. Abre tudo. Trabalho antigo de volta. Trabalho novo pintando. Vida quase normal. O quarto escuro lá no fundo, olhando pra mim. A chave?… A chave?… Não queria saber. Não tinha importância. Acorda, trabalha, dorme. Acorda, trabalha, dorme. Acorda. Acorda. Acorda! 

Sentei na cama. Puxei o ar. Olhei em volta. O tal quarto escuro escancarado bem ali, iluminado e magnificado, de doer nos mil olhos que eu nem tenho, gritando comigo, alto e furioso, inclemente, na minha cara, feito uma bofetada em loop infinito. E tudo tremeu. E tudo veio abaixo. Quanta, quanta coisa trancada ali por tanto tempo. Por todos os tempos. 

Onde eu estava enquanto isso acontecia?… Acordando. Dormindo. Trabalhando. Andando no parque. Trabalhando. Dormindo. Dormindo. Dormindo. Até simplesmente não poder dormir mais…

Um ano chamado 2020 veio. E a vida até segue. Mas não há sobreviventes.

Uma Reflexão Sobre O Tempo …

Quarta-feira passada, 13 de Janeiro, foi meu aniversário. Alguns dias antes, no final de semana, essa foto foi tirada. Qual é a minha idade?…

Nós aprendemos bem cedo na vida a temer o tempo. Aproveite a sua infância, ela não dura. Festeje muito e experimente ao máximo na adolescência – é a única época da vida na qual você pode verdadeiramente se divertir. Decida tudo nos seus “vintes” ou desastre se abaterá sobre você para todo sempre. Você está nos “trintas”? Prepare-se: a decadência está prestes a começar. “Quarentas”? “Cinquentas”?… Você não é mais nova. Ou bela. Ou tem qualquer direito de correr qualquer risco. Se você ousar ser ou fazer essas coisas você é ridícula e se recusa a envelhecer. E… bem… qualquer idade depois disso significa que você é simplesmente… velha.

Todos já ouvimos essas coisas. E eu acredito que todos sabemos, bem no fundo, que é tudo uma grande mentira. Simplesmente não corresponde ao que vemos ao olhar em volta – ou no espelho.

Eu já tive todas as idades em todas as idades. Já me senti velha e feia. Jovem e bonita. Brilhante e estúpida. Doente e saudável. Exausta e invencível. E essas coisas todas nunca aconteceram pra mim em nenhuma linearidade, de nenhum tipo.

Não é só que as pessoas envelheçam de formas diferentes em comparação umas com as outras, você envelhece diferentemente de você mesmo, dependendo de em que momento você está e como você se sente. E, acredite, a coisa aparece no seu rosto! As pessoas notam. As câmeras registram.

13 de Janeiro foi meu aniversário. Quarenta e quatro anos atrás eu saí do útero da minha mãe. Não faço a menor ideia de qual é a minha idade.

A Reflection On Aging…

Last Wednesday, January 13, was my birthday. Just a few days before that, on the weekend, this picture was taken. How old am I?…

We learn pretty early in life to fear time. Enjoy your childhood, it doesn’t last. Party hard and experiment a lot during your teens – it’s the only time in your life you really get to have fun. Decide everything in your twenties or disaster will crash down on you forever. You’re on your thirties? Prepare: decline is about to begin. Forties? Fifties?…You’re not fresh anymore. Or beautiful. Or allowed to take any risks. If you dare do or be any of that you’re ridiculous and unwilling to age. And… well… any age after that you’re simply… old.

We’ve all heard those things. And I believe we all know, deep down, it’s just a big fat lie. It just doesn’t add up when we look around – or in the mirror.

I have been all ages in all ages. I’ve felt old and unattractive. Young and beautiful. Brilliant and stupid. Sick and healthy. Tired and unstoppable. And it never happened to me in any linearity of any kind. 

It’s not just that people age in different paces in comparison with each other, you age differently from yourself depending on what period you are and how you’re feeling. And believe me, it shows! People see it. Cameras capture it.

January 13 was my birthday. Forty-four years ago I came out of my mother’s womb. I have no idea how old I am right now.