Ou Isto Ou Aquilo…

As luzes se acendem no palco. Se apagam na platéia. Eu respiro fundo. Há um cheiro em teatro. Um buzz. Uma coisa qualquer. Eu olho em volta. Espaço lotado. Tanta, tanta gente. Eles também sentem o cheiro? O buzz?… Não. Bastante óbvio que não. Eu também não devia mais sentir. Já não estou lá. Estou aqui. Lá, as crianças… Sorrisos embaraçados, passos trocados, câmeras, flashes. Eu aqui, imóvel. Vinte e um, vinte e dois anos. Que cansaço enorme. Exaustão, mesmo. O cheiro, o buzz, os flashes. Eu, menina, fecho os olhos. Ou isto ou aquilo. Ou isto ou aquilo.

O espetáculo é todo em homenagem a Cecília Meireles, minha prima, a mãe de uma das crianças explica, muito orgulhosa. Ah… eu digo… que lindo. Lindo. Falar sobre coisas feito poesia. Ah, falar sobre essas coisas… Mas não é possível ali – em meio a quem não sente o cheiro de um teatro. O cheiro, o buzz. Não há palavras. Os flashes as engolem, todas. As crianças lá, mas não. Os pais aqui, mas também não. Eu?… Onde eu estaria? Que cansaço. Eu respiro fundo. O cheiro… O buzz… O cheiro. Eu não deveria mais sentir isso. Já não estou lá. Ou isto ou aquilo.

“Quem fica nos ares não fica no chão…”

“Ou guardo o dinheiro ou compro o doce…”

“Ou se tem sol e não se tem chuva…”

Cecília. Grande, enorme, esplendorosa Cecília… Cecília Meireles e seu poema sobre escolhas. Ah, as escolhas… Essas coisas inevitáveis da vida. Saber escolher, sim, uma inescapável parte do crescimento humano. Esta blusa ou aquela? O vermelho ou o azul? O bolo ou o sorvete? Inglês ou francês. Aceitar que é preciso escolher. Saber escolher. Sim… Mas… E o saber NÃO escolher?

Como manejar uma vida entre a platéia e a ribalta? Na penumbra da zona cinzenta onde algumas pessoas existem – não que queiram. Eu, se pudesse, certamente escolheria ter sido um ser de black or white, aqui ou lá, isto ou aquilo… Mas quando, quando há de alguma coisa neste mundo obedecer às minhas vontades? Quando, eu pergunto. Eu, eu mesma, na minha totalidade fragmentada de mil verdades em uma mentira só. Eu, que fui fechando os olhos, sentada naquela platéia, embalada pela musicalidade das palavras de Cecília… Ou isto ou aquilo.  Ou isto ou aquilo. 

Eu penso naquele momento, aquela festa de fim de ano, aquele cair num sono profundo e absolutamente insuspeito… Eu, agora, no dobro exato da idade daquela menina que eu, um dia, fui. Eu, que não estou nem aqui nem lá; ou, antes, que estou aqui E lá. Que sinto o cheiro, e o buzz, e uma coisa qualquer. Que não me espanto, nem me chateio mais, ao perceber os que não sentem. Eu, que nunca me canso. Eu, que sou isto E aquilo E coisa nenhuma. Eu, que só posso estar inteira quando partida em mil pedaços. Eu penso, penso… E procuro por Cecília. Quem era, afinal, esta poeta das escolhas?

Cecília Meireles. Poeta, sim. Mas também professora, jornalista, artista plástica. Teve uma vida pequena, simples, muito solitária em casa, não brincava muito com outras crianças. Teve uma vida enorme, viajou por todo lado, falou várias línguas, conheceu muita gente. Foi solteira, casada, viúva, casada outra vez. Inteligente E respeitada E bonita. Sim, bonita mesmo. Eu achei. Uns olhos lindíssimos. Descritos como?… Azuis-esverdeados ou… verde-azulados! Nem isto nem aquilo. As duas coisas. Olhos lindos. Quem se importa de que cor eram?… Ela mesma, talvez?… É provável. Ao menos por algum tempo, em alguns momentos. Poetas, afinal, também são gente. E, nessa de ser gente, algumas coisas se complicam.

A angústia… Ah, essa terrível angústia da subjetividade, das possibilidades infinitas. Quem suporta uma coisa assim? Apelamos ao pensamento binário. Como já dizia a minha avó, o problema é ter roupa demais no armário. Quando só se tem uma, a solução é automática. Uma de cada. A roupa de casa, a roupa de sair. Bom ou ruim. Certo ou errado. Artista ou jornalista. Brasileira ou expatriada. Solteira ou casada. 

Ou isto ou aquilo. Eu me vejo fechar os olhos e ir dormir. As luzes se apagam no palco, se acendem na plateia. As pessoas se levantam e saem, em blocos. Pra casa ou pro restaurante? Pizza ou sushi? Coca ou Pepsi? Que cansaço… As palavras de poesia ficando pra trás… O cheiro, o buzz, a menina… Eu a deixo ir. Um dia a gente se encontra.  Um dia com chuva E sol. Eles existem.

This Gravitational Force…

She just sat there. For five minutes, for two hours, for many years, forever. So beautiful. Was she, really? Yes. No. Didn’t matter. She knew the answers. In that, her beauty. Siting there, the immensity of the sea ahead. The issue hovering over, some indefinite place. The issue… And the question.

Are you going in?

Where?

You know… In?

The ocean?

Going in, really in, all the way in… You?

That depends… You, who?

She. She. The character. Speak low. Better still, say nothing at all. Silence. It’s not possible to speak without making use of her. The character. And it. The sea. The deception is needed. Or it’ll wake up. It. The monster. The thing they call love, for sheer lack of a better word. It wakes up. Engulfing me. Engulfing everything there is. Silence.

In? Who? She. You may call her by any name. She, the character. She looks at the sea. No. The sea looks at her. They both look. Who looked first? Impossible to tell. Impossible. Even for her, that pays so much attention to everything, that keeps it all under control, that knows all the answers. Impossible to tell. Silence.

What is love? What is it, after all? Issue. Invention. Excuse. Social control mechanism. Game. Object of desire. Disease. Pure, pure fantasy. Delusion. Necessity. The thing for people who know no necessities. Nothing at all. The discussion goes on and on. So many words.

People like talking. It’s all there’s to do. It’s the swimming moves, in open sea. One arm, then the other, and back again. Makes sense, works, takes you back to dry land in perfect mathematical progression, logic, tedious. Until the sea tells you otherwise. Until it wakes up and says slower, faster, maybe now, maybe never. Until it sucks you deep down and swallows you and spits you out and grabs you in and lets you go.

It, the object of empty, superfluous analysis. That which cannot be foreseen, accounted for, contained. Which cannot be held in anybody’s hands for more than a fraction of time, for it will always find cracks from where to pass through and keep moving somewhere which domain could never be claimed. It, that is sovereign, unassailable, indifferent. It, that exists contrary to you, beyond your beliefs or conformity. That stays still, mute, deceased, non existent, for ages and ages, for more time of all times, till it awakens someday that never was, and takes over every single piece of time and existence you swore belonged to you and you alone. A thing of all things and of nothing at all. With no beginning and no end. No adjectives, no verbs, no words, per se, no numbers, no DNA, no qualifier, of any kind, coming from even the greatest of the intellects. Whatever for… that… it… after all? What for?…

The other loves… ok. Loving one’s children, friends, family members, mankind… Love calmly, in the natural comings and goings, as we meet and miss and meet again, in the moderate emotion of being together, then apart. Me, right here. You, over there. See each other all the time now, very rarely later. All the time again. Normal. Good. Reasonable. Socially useful. Psychologically justifiable. 

The other love… Silence. Impossible to talk without it, the sea. And she, the character.

She just sat there. For five minutes, for two hours, for many years, forever. It… Calling. It… Wanting to wake up. The sea. The sea. And it will. Because it cannot be contained. Because it should not have any names, or theories, or speeches. It, that exists on its own. It, which is not an idea, nor an object, nor even a feeling. It’s not. Not, absolutely, a feeling. It just IS. Out, in, around, through. Magnetism which makes you need what is not necessary, leaves more alive that which it kills, makes unbearable that which has never been better. The non achievable materialisation of all paradoxes. 

It looked at her.

She looked at it.

Or was it the other way around?

Or was it at the exact same time?

Impossible to tell.

Even for her. The character. She, who couldn’t pay that much attention to it all any longer, who doesn’t have the strength to control a thing anymore. She, who doesn’t know the answers. In that, her beauty. Silence. Silence…

Explosion. The sea stands tall, huge, rebellious. And she can stay sited. Or get up. Dive, head first. Jump, on her feet. Walk into water and submerge, consensually. Not come in, in any way. Breathe under water, even if painfully. Struggle, for all times. Live, eternally, in drowning. Die, at each second. Merge with the water, perhaps, somehow…

To her, many, the possibilities.

To it, sovereignty.

Myself, that I called “character”. Love, that I called “sea”.

She… It…

The two of us… And this gravitational force.

Ela… Ele… E Essa Força Gravitacional…

Ficou sentada ali. Por cinco minutos, por duas horas, por muitos anos. Pra sempre. Tão bonita, ela. Era mesmo tão bonita? Sim. Não. Não importava. Sabia as respostas. Essa, a sua beleza. Sentada ali, a imensidão do mar à frente. O assunto pairando em algum lugar indefinido. O assunto… E a pergunta.

Você entra?

Onde? 

Você sabe… Entra?

No mar?

Entra de tudo, de todo mesmo… Você?

Depende… Você, quem?

Ela. Ela. A personagem. Fale baixo. Melhor, não fale nada. Silêncio. Não é possível falar sem fazer uso dela. A personagem. E dele. O mar. O falseamento é necessário. Ou ele acorda. Ele. O monstro. Ele, que chamam de amor, pela falta de palavra melhor. Ele acorda. E me engole. E engole tudo o que tiver pela frente. Silêncio.

Entra? Quem? Ela. Podem chamar de qualquer nome. Ela, a personagem. Ela olha pro mar. Não. O mar olha pra ela. Ambos se olham. Quem olhou primeiro? Impossível dizer. Impossível. Mesmo pra ela, que presta tanta atenção a tudo, que tudo controla, que sabe as respostas. Impossível dizer. Silêncio…

O que é o amor? O que é isso, afinal? Assunto. Invenção. Pretexto. Mecanismo de controle social. Passatempo. Objeto de consumo. Doença. Pura, pura fantasia. Ilusão. Necessidade. Coisa de gente que não sabe o que é necessidade. Coisa nenhuma. A discussão segue e segue. Tantas palavras.

Pessoas gostam de falar. É o que se pode fazer. São as braçadas no mar. Uma, depois outra, e outra. Faz sentido, funciona, te leva de volta pra margem em progressão matematicamente perfeita, lógica, enfadonha. Até que o mar diga diferente. Até que ele acorde e diga mais devagar, mais rápido, nunca mais. Até que ele te arraste ao fundo e te engula e te cuspa e te prenda e te solte. 

Ele, o objeto de análise vazia e supérflua. O que não pode ser previsto, contabilizado ou contido. Que não pode ser retido nas mãos de ninguém por mais de uma fração de tempo, que sempre acha frestas por onde passar e seguir se movendo para algum lugar cujo domínio não pode ser reivindicado. Ele, que é soberano, inatacável, indiferente. Ele, que existe à sua revelia e independente da sua crença ou concordância. Que fica parado, mudo, morto, inexistente, por tempos e tempos, e mais todos os tempos do seu tempo, até que ele desperte em algum dia, que nunca existiu, e tome conta de todos os pedaços do tempo e de existência – que você jurou que eram seus. Uma coisa sem coisas. Sem início, sem fim. Sem adjetivos, sem verbos, sem palavras, por assim dizer, sem números, sem DNA, sem qualquer qualificador, de qualquer ordem da maior das inteligências.

Pra quê isso, afinal? Pra quê?

Os outros amores… ok. Amar os filhos, os amigos, os membros da família, a humanidade… Amar tranquilamente, nas idas e vindas naturais, nos encontros e desencontros, na emoção moderada de estar juntos e depois separados. Normal. Eu aqui, vocês ali. Nos vemos sempre agora, muito raramente depois. Sempre de novo. Normal. Bom. Tudo sempre bom. Razoável. Socialmente útil. Psicologicamente justificável.

O outro amor… Silêncio. Impossível falar sem ele, o mar. E ela, a personagem.

Ficou sentada ali. Por cinco minutos, por duas horas, por muitos anos. Pra sempre. Ele… Chamando. Ele… Querendo acordar. O mar. O mar. E vai. Porque não pode ser contido. Porque não deveria ter nome, nem teorias, nem falas. Ele, que existe por si só. Ele, que não é ideia, nem objeto, nem sentimento. Não é. Não é, absolutamente, um sentimento. Simplesmente é. Fora, dentro, em torno, através. Magnetismo que te faz precisar do que não é preciso, que deixa mais vivo o que mata, que torna insuportável o que nunca foi melhor. A materialização não concretizável de todos os paradoxos.

Ele olhou pra ela.

Ela olhou pra ele.

Ou foi o contrário?

Ou foi ao mesmo tempo?

Impossível dizer.

Mesmo pra ela. A personagem. Ela, que não pôde mais prestar tanta atenção a tudo, que não tem mais energia para controlar coisa alguma. Ela, que não sabe as respostas. Essa, a sua beleza. Silêncio. Silêncio…

Estrondo. O mar se agiganta. E ela pode seguir sentada. Levantar. Pular de cabeça. Saltar de pé. Caminhar água a dentro e submergir, consensualmente. Não entrar, de forma alguma. Respirar debaixo d’água, ainda que dolorosamente. Se debater, por todos os tempos. Viver, eternamente, em afogamento. Morrer,  a cada segundo. Se fundir com a água, talvez, de alguma forma…

A ela, muitas, as possibilidades.

A ele, a soberania. 

Eu, que chamei de ela. O amor, que chamei de mar. 

Ela… Ele…

Nós dois… E essa força gravitacional.

O Porto, O Barquinho E A Festa… Um Dia

photo by: Flávia Ruiz

Essa semana eu fui descendo pelas ruas do Porto até a Ribeira, batendo fotos. Uma música indo e vindo na minha cabeça. “O Barquinho”… 

“Dia de luz, festa de sol/E um barquinho a deslizar/No macio azul do mar/Tudo é verão, o amor se faz/Num barquinho pelo mar/Desliza sem parar…”

Se você é brasileiro e carioca, como eu, essa música é mais do que familiar. É parte do inconsciente coletivo, praticamente. E ela veio pra mim, naquele momento. É início da primavera aqui. Primavera mesmo.

photo by: Flávia Ruiz

Aqui as estações mudam. Dramaticamente, concretamente, pra todos os seus sentidos notarem. A luz é outra, a temperatura sobe de repente, as flores explodem por todo lado, as borboletas e abelhas aparecem, o pólen passa voando – às vezes um aqui, outro ali; às vezes em “nuvens” tão grandes e densas que já me fizeram correr na direção oposta, porque, né, alergia – e um certo quê de irracionalidade ridícula que faz parte desta pessoa aqui, em algumas situações da vida…

Ah… A primavera, a promessa do verão depois de um longo e tortuoso inverno. A festa. Tudo é festa. Segundo o Barquinho. É?… É mesmo? Parece ser. Deveria ser. Eu tento, mais preciso do que tento, crer que seja. Eu desço as ladeiras, respirando com algum esforço, por baixo da máscara, clic, clic, clic.

photo by: Flávia Ruiz

A gaivota que passa está em festa, a boneca-moça na janela está em festa, as árvores estão em festa. O barquinho, ali no Douro… O barquinho está em festa.

Eu?… Eu tento. Não acontece. Não sei mais como. Mas vou. Um dia. Um dia, de alguma forma, vou estar em festa. Um dia, quando tudo é verão e o amor se faz. Um dia.

The Fear, The Fall, The Flight…

I was little. Very, very much so. In that time that comes before the time when you know you’re little. Before the time you know you are. The movement dazzled me.  Anything that meant going out there, walking the path…

People’s legs went by. I got hypnotised. That fast, agile pacing. Freedom.

The girls’ roller-skates glided by. I got hypnotized. That graceful zig-zagging, around me. Freedom.

Above all else, bicycles. Oh, the bikes. That wonderful miracle of the perfect balance, of the effortless riding, the wind, the wind, the wind… That was flying, I was sure. Freedom. More, way more than freedom. The very absence of the oppression of time and space, of being anything for anyone. Simply to be in motion, like a bird that has nowhere, and no reason, to come back…

May I go? No. Too soon. Time for training wheels.

I hated those wheels. Hated. They left everything stuck. Did this dreadful noise. It felt like being tied up. Mortal hatred. But it wasn’t my time yet. My big sister, yes. The neighbour, also. The other kid, from the building next to ours. My older cousin.

And then, it started… Skinned knees, bumps on foreheads, wrecked toes, wrecked everything! And blood, blood, blood. Tears. So many tears. And there they went again. And again. And again. Swallowing hard, I asked my sister about the accidents. She said:

“There’s no other way. Nobody learns if not by crashing.”

I pulled back. Wasn’t for me, all that drama. Thanks but no, thanks. I could very well live without riding bikes, couldn’t I? Yes. But no. Yes, but, then, what to do with that desire to fly? I could. Yes. But, then, what to do with myself?…

A few years went by. I was already too big. Too old. Eleven! Who would learn at that age? Me! I would. Even if it would take my whole life. And the help of my sister. My aunt. My other aunt…

Today is the day. No, it’s not. Almost made it, but I lost the balance. And the courage. Not sure which one first. Both. Almost made it again. Was going well. In straight lines. But couldn’t turn the corners. Having to change course, I fell. And falling, it hurt. And hurting, I pulled back. I would never know how to do that. Never. It was, simply put, against the laws of nature. Against my own, at least, it was. But, oh, the wind… and the feeling of being almost, almost, almost…

End of the summer holidays. My older cousin took over the task. A small street, a tiny little hill, an enormous will to go and then…

I went! How? How did it happen? The sudden balance… Where did it come from? Didn’t know. Didn’t care. Still don’t. Now, more then ever. Me and the bike were one. I was flying. Freedom. Passion. Obsession. There weren’t enough hours in that first day for me to ride. And to go up the hill, and back down. In the fastest possible speed. More and more. Happy, so happy. But it hurt. A lot. At first, for riding too much. Other times, later on, a lot of them, because I crashed. Got skinned. Bled. And I still have quite a lot of fear in me. Every now and then, I pull back. But I always end up going on the bike again… Flying is all there is. I simply must go on…

O Medo, A Queda, O Voo…

Eu era pequena. Muito, muito. Naquele tempo que vem antes do tempo em que se sabe que se é pequena. Antes do tempo em que se sabe que se é. O movimento me encantava. Qualquer coisa que significasse sair por aí, trilhar o caminho…

As pernas das pessoas passavam. Eu ficava hipnotizada. Aquelas passadas tão largas e rápidas. Liberdade.

Os patins das meninas deslizavam. Eu ficava hipnotizada. Aquele deslizar em zigue-zague, com tanta graça. Liberdade.

Sobre todas as outras coisas, as bicicletas. Ah, as bicicletas. O maravilhoso milagre do equilíbrio perfeito, as pedaladas sem esforço, o vento, o vento, o vento… Aquilo era voar, eu tinha certeza. Liberdade. Mais, bem mais do que liberdade. A ausência da opressão de tempo e espaço, de ser qualquer coisa de qualquer pessoa. Só estar em movimento, feito um pássaro que não tem pra onde, nem por quê, voltar…

Posso ir? Não. Muito cedo. Tempo de rodinhas. 

Eu odiava as rodinhas. Odiava. Deixava tudo preso. Fazia um barulho enjoado. Era como estar amarrada. Ódio mortal. Mas não era minha vez ainda. Minha irmã mais velha, sim. O vizinho, também. O outro garotinho, do prédio ao lado. Minha prima maior. 

E aí, começou… Joelho ralado, galo na testa, dedo do pé arrebentado, tudo arrebentado! E sangue, sangue, sangue. Lágrimas. Quantas lágrimas. E lá iam eles de novo. E de novo. E de novo. Engolindo seco, perguntei pra minha irmã sobre os acidentes. Ela disse:

“Não tem jeito. Ninguém aprende a andar de bicicleta sem se arrebentar”. 

Recuei. Não dava pra mim não, aquele drama todo. Thanks but no, thanks. Eu podia muito bem viver sem andar de bicicleta, não podia? Podia. Mas não podia. Podia, mas o que fazer com aquela vontade de voar? Podia. Mas o que fazer comigo mesma?…

Uns anos passaram. Eu já estava grande demais. Velha demais. Onze anos! Quem aprende naquela idade? Eu, eu ia. Nem que levasse a vida toda. E a ajuda da minha irmã. Da minha tia. Da minha outra tia. Hoje vai. Não, não vai. Quase foi, mas perdi o equilíbrio. E a coragem. Não sei qual primeiro. Os dois. Quase foi de novo. Estava indo bem. Em linha reta. Mas não sabia fazer curva. Tendo que mudar de rumo, eu caía. E caindo, doía. E doendo, recuava. Eu nunca ia saber fazer aquilo. Nunca. Era simplesmente contra as leis da natureza. Contra as minhas leis, pelo menos, certamente era. Mas, ah, o vento… e aquela sensação de estar quase, quase, quase…

Final de férias. Minha prima maior assumiu o encargo. Uma pequena rua de terra batida, uma pequena ladeira, uma grande vontade de ir e aí… 

Fui! Como? Como aconteceu? O súbito equilíbrio veio de onde? Não sabia. Não importava. Ainda não sei. Importa menos ainda. Eu e a bicicleta éramos uma pessoa só e eu estava voando. Liberdade. Paixão. Obsessão. Não havia horas suficientes naquele primeiro dia para que eu andasse de bicicleta. E subisse a ladeira, e descesse a ladeira. Em alta velocidade. Cada vez mais alta. Feliz, feliz. Mas doeu. Muito. Doeu de pedalar demais, mesmo. Em outras vezes, muitas, doeu porque eu caí. Ralei. Sangrei. E eu ainda tenho um bocado de medo. De vez em quando, eu dou umas recuadas Mas eu sempre  acabo subindo na bicicleta de novo… Voar é preciso. 

The Side We Show. And The Other Side…

Have you ever taken embroidery classes? Stupid question. Of course not. Who does that, still, in this day and age? Me. I have. Back in the Eighties, when I was a child, in school. It was part of the curriculum. Along with some other things that, honestly, belonged to other centuries – which explains a lot about the unusual and misplaced person I have become, but that in itself is already another post… So, that was it. Embroidery. Classes every week. And a final work to go to an exposition by the end of the year. Every-single-year.

Needle, thread, wool. Another needle that was bigger and thicker. Another, still, that looked like a hook and it was meant for making carpets. Stitch for this, stitch for that. The right way to put the thread through the needle and move it inside out. Tight the stitch. In a certain measure. Too much, and it would get tensioned and wrinkled. Too little, it would get loose. I looked sideways. The one made by a classmate was moving faster than mine. And looking nicer. Oh, the hell with it. Either way, it would all end up in the exposition. All in there, lined up. Beautiful. Orderly. Who did those things? Who?

I haven’t thought about that in years. Don’t even know how many. But then, one day, I was scrolling through Instagram and bumped into an interview given by a dear, dear actor-friend of mine. How did you decide to be an actor? Oh, it was like this and that. I liked this, dreamed about that, went right, went left. And the writing, happened how? I noticed I had a way with it. Did such course. Was invited to don’t know what. Got the X award. Did the Y job.

It was the embroidery stuff. Right there. In audio, video, hashtags and comments. Beautiful, organized, perfectly alined… embroidery.  One stitch, then the other, and other. Pink, green, yellow, brown. Each thing in its own place, in its due order.

Show me the inside out! Show it! Show it if you have the balls! I don’t. But I do.

Flávia, how did you become a writer? Actress? Journalist? Resident of Tijuca, Rio, Porto, nowhere, your own home? Mother, aunt, god-mother, friend, unfriend, neighbour, ex-neighbour, neighbour once again, a person who loves Carnival, hates Carnival and noise, wants to travel the whole world, doesn’t want to leave the house, wants to love, a little bit, moderately, doesn’t want anything, no kind of love, ever again, love a lot, till I lose my breath and get purple and die, no, never ever die, but if die I must, maybe of something that takes the air out of me wouldn’t be so bad, the next novel maybe, never, never again am I to write a novel, started writing one just these days, but I’ve said never again, never is suuuuuuch a long time, and don’t have that kind of time… Ã?… What was it again that I’ve said? What? Where did it all begin? I don’t remember. I remember  absolutely everything. Don’t remember anything at all. I feel. Feel that I remember. Feel I remember that first time I saw that person, you know who? No? That’s the one. On the other side of the courtyard. Lost my breath. Didn’t. Don’t remember. Don’t know. Have no ideia. Where was I? Where?…

Where was my needle? Lost it. It was fine, I had a spare one. No, I didn’t. Didn’t know where it went. What now? I went to speak to the nun. She was busy. Wait there. Wait. I was snorting already. What a mess, what an out of control mess that damn piece of embroidery was. I was so behind… The noun sent me back. I should wait siting down. I did. But punched the desk. Softly. Discretely. And I said some crap. More softly. Even more discretely. Out of the room! Who has ever been expelled from a classroom for throwing a little, pathetic punch at a desk? I. I have. 

In the corridor, alone, staring at the stained glasses, I thought… How, in the name of the Lord, did I end up there… Had no ideia. Neither did the nun. What happened to you, Flávia? That’s not like you. And it wasn’t. Was it? Go figure… What is? What is “like someone”? Sorry, sister. That’s really not like me. Not al all. Super calm, me. Delicate. Perfect. Glacial. The maker of the best embroidery work, of all the works, ever to be made by anyone.

Got back to my place. New needle in hand. The perfect embroidery work with my name on it. Bullshit. Nobody cares. Perfect. Beautiful. Big-fat-lie. Only the side I show. The other side, in that state… Like everybody else’s. Worse, way worse, probably. Everything on top of everything, entangled, senseless, pointless, down there, where no one can, or want, to see. The exposition goes on. I’ve lost my needle. I am alone in the corridor. How did I end up here?…

O Lado Que Mostramos. E O Outro Lado…

Você fez aula de bordado? Pergunta estúpida. Claro que não. Quem faz aula de bordado ainda, neste mundo? Eu. Eu fiz. Em plena década de oitenta, quando era criança, na escola. Fazia parte do currículo. Junto com algumas outras coisas que, francamente, pertenciam a outros séculos – o que explica muito sobre a pessoa algo anômala e deslocada de tempo que eu me tornei, mas isso já é um outro post… Enfim, era isso. Bordado. Aulas toda semana. E um trabalho a fazer para ir para a exposição da escola no final. Todo-santo-ano.

Agulha, linha, lã. Outra agulha que era maior e mais grossa. Outra ainda que parecia um gancho e servia para fazer tapetes. Ponto disso, ponto daquilo. O jeito certo de colocar a agulha na linha e passar pra lá e pra cá. E fazer o ponto. Numa certa medida. Demais, ficava repuxado e enrugado. De menos, ficava frouxo. Eu olhava pro lado. O da coleguinha estava indo mais rápido que o meu. E ficando mais bonito. Ah, que se danasse. De todo jeito ia tudo parar na exposição. Tudo ali, enfileirado. Lindo. Em ordem. Quem fazia aquelas coisas ali? Quem? 

Eu não pensava nisso há anos Nem sei quantos. Mas aí eu estava um dia desses no Instagram e dei com uma entrevista que um amigo muito muito querido tinha dado. Fulano, como você decidiu que ia ser ator? Ah, foi assim e assado. Eu gostava disso, sonhava com aquilo, fui aqui, fui ali. E escrever, aconteceu como? Eu vi que tinha jeito pra coisa. Fiz o curso tal. Fui convidado pra não sei o quê. Ganhei o prêmio X. Fiz o trabalho Y. 

Era o bordado. Bem ali. Em audio, vídeo, hashtags e comentários. Um lindo, organizado, perfeitamente alinhado, bordado. Um ponto, depois outro, outro. Rosa, verde, amarelo, marrom. Cada coisa em seu lugar, na devida ordem.

Vira do avesso? Vira! Vira se você tem coragem! Virei.

Flávia, como você se tornou escritora? Atriz? Jornalista? Moradora da Tijuca, do Rio, do Porto, de lugar nenhum, da sua própria casa? Mãe, tia, dinda, amiga de Fulano, desamiga de Beltrano, vizinha, ex-vizinha, vizinha de novo, pessoa que ama Carnaval, odeia, odeia Carnaval e barulho, quer viajar o mundo todo, não quer sair de casa, quer amar, um pouquinho só, moderadamente, não quer nada, nada, nenhum tipo de amor ever again, amar muito, de perder o ar e ficar roxa até morrer, não, não morrer nunca, jamais, mas se tiver que morrer, talvez de alguma coisa que tire o ar não seja má ideia, o próximo livro talvez, nunca, nunca mais vou escrever livro, comecei a escrever livro novo esses dias, mas eu disse que nunca mais, nunca mais é taaaaanto tempo, eu não tenho esse tempo todo… Ã?… O que foi mesmo que eu disse? O que? Onde isso começou? Eu não lembro. Lembro de absolutamente tudo. Não lembro de nada. Sinto. Sinto que lembro. Sinto que lembro a primeira vez que eu vi aquela pessoa, sabe quem? Não? Pois é. Do outro lado do pátio. Vi. Perdi o ar. Não perdi. Não lembro. Não sei. Não faço ideia. Onde eu estava? Onde?…

Onde estava a minha agulha? Perdi. Tudo bem, eu tinha uma reserva. Não tinha. Também não sabia onde tinha ido parar. E agora? Fui falar com a freira. Ela estava ocupada. Espera aí. Espera. Eu bufando já. Que bagunça, que bagunça incontrolável já estava o diabo do bordado. E tão atrasado. A freira me mandou de volta. Que eu esperasse sentada. Sentei. Mas soquei a mesa. De leve. Discretamente. E falei alguma porcaria. Baixinho. Mais discretamente ainda. Fora de sala! Quem é expulsa de sala porque dá um soquinho de nada numa mesa? Eu. Eu fui. 

No corredor, sozinha, olhando os vitrais, eu pensava… Como, em nome do senhor, eu tinha ido para ali… Não fazia ideia. A freira também não. O que é que houve com você, Flávia? Você não é disso. E não era. Era? Vai saber… E quem é? Quem é “de alguma coisa”? Desculpe, irmã. Eu realmente não sou disso. Não sou. Super calma, eu. Delicada. Perfeita. Glacial. A dona do bordado mais bem bordado de todos os bordados.

Voltei pra minha mesa. Agulha nova em mãos. O bordado perfeito com meu nome embaixo. Bullshit. Ninguém se importa. Perfeito. Lindo. Mentira. Só o lado à mostra. O avesso, daquele jeito… Feito o de todo mundo. Pior, bem pior, provavelmente. Tudo por cima de tudo, embolado, sem nexo, nem direção, lá atrás, lá, onde ninguém pode, nem quer, ver. A exposição segue. Perdi a agulha. Estou sozinha no corredor. Como eu vim parar aqui?…

The Year of No Survivors…

And then 2020 had started. I spent New Years Eve at home. Thousands of people out on the streets here in Porto. Could I have done it too? Absolutely. But I chose to stay in. I’m not one for big parties in such occasions. A nice dinner, music, my very loud family around me, a great movie after midnight, all that I enjoy. Here in Porto I couldn’t have some of those things. The family is on the other side of the Atlantic. But dinner was on. So was the movie. Then go to bed wishing for a better year. We know it’s out of our control but, what the hell, we’re only human. And wishing is free. 

Soon after, January. My birthday. I usually take a few hours for myself, indulge in a lonely movie theatre session, think about my life. Again, I wish for a nicer period of time ahead. It’s still free and I am, well, still human. So, on that January 13 of 2020 I basically did all of that. But, I don’t know… I was in a bad mood. An uncomfortable feeling. And old. So old. I walked down the freezing park. It’s nothing. It’s nothing. Focus on the work. Write. It’ll pass. It won’t pass. But it will pass.

It was passing. Time. Not the other thing. Always there. I started reading more and more, on the papers, about the new virus that was spreading. I thought about H1N1. Maybe we’ll see some of that again and ok. Life goes on. We survive.

February came. I started to try and buy face masks and hand sanitizer . They were nowhere to be found here in Porto. I walked everywhere, even under the rain, to avoid public transportation, opened doors with a handkerchief, wouldn’t let anyone come too close. That oppressive feeling somewhere inside myself, somewhere I couldn’t tell, in some dark room to which I didn’t have the key. Life goes on. We survive.

March. Locked in the house. Fever and pain and exhaustion. My eyes deep, so so deep and shadowed. An out of control heartbeat. A fear in the dark. Of the disease? No. I never really thought it was going to complicate itself, least of all that I was going to die. The other thing. The thing at the end of some corridor in me, in that room to which I didn’t hold the key. A mortal fear. The disease went away. Work to do, relocation to deal with, daughter to take care of, screenplay to finish. Life goes on. We survive.

The months came and went. Lockdown on. Lockdown off. Old job coming back. New gig coming around. Life almost normal. The dark room down there, looking at me. The key?… The key?… I didn’t wanna know. It didn’t matter. Wake up, work, sleep. Wake up, work, sleep. Wake up. Wake up. Wake up!

I sat up on the bed. Gasped for air. That dark room cracked opened right there, lit up and magnified, hurting the thousand eyes I don’t even have, yelling at me, loud and mad, unforgiving, like a never-ending slap on my face. And it all got shaken to it’s core. And it all came crashing down. So, so many things locked up in there for such a long time. For all times.

Where was I while it was happening?… Waking up. Sleeping. Working. Walking down the park. Working. Sleeping. Sleeping. Sleeping. Until I just couldn’t sleep anymore…

A year called 2020 came by. And life does go on. But there are no survivors.

Um Ano Sem Sobreviventes…

Então 2020 tinha começado. Eu passei a noite de Ano Novo em casa. Milhares de pessoas nas ruas, aqui no Porto. Eu podia ter saído? Podia. Mas escolhi ficar. Não gosto de grandes festas nessa data. Um jantar legal, música, minha ruidosa família em volta, um filme depois da meia-noite, isso tudo eu gosto. Aqui no Porto eu não podia ter algumas dessas coisas. A família está do outro lado do Atlântico. Mas o jantar estava de pé. O filme também. E depois dormir torcendo por um ano melhor. A gente sabe que está fora do controle mas, what the hell, somos humanos. E torcer é de graça.

Logo depois, janeiro. Fiz aniversário. Costumo tirar umas horas, me dou uma sessão de cinema solitária, penso na minha vida. De novo, torço por um período melhor em seguida. Continua sendo de graça e eu, well, continuo sendo humana. Então, naquele 13 de janeiro de 2020 eu fiz basicamente isso tudo aí. Mas, sei lá… eu estava de mau humor. Uma sensação incômoda. E antiga. Tão antiga. Fui caminhando pelo parque gelado. Não é nada. Não é nada. Foca no trabalho. Escreve. Vai passar. Não vai passar. Mas vai passar. 

Foi passando. O tempo. A outra coisa não. Sempre lá. Eu comecei a ler com mais frequência nos jornais sobre o vírus novo se espalhando. Pensei no H1N1. De repente vamos ver aquilo de novo e ok. A vida segue. A gente sobrevive.

Fevereiro veio. Comecei a tentar comprar máscaras e álcool gel. Não tinha. Em lugar nenhum mais aqui no Porto. Eu caminhava para os lugares, mesmo na chuva, para evitar transporte coletivo, abria portas com lenço de papel, não deixava ninguém chegar tão perto. Aquela sensação opressora em algum lugar de mim mesma que eu não sei dizer, num quarto escuro do qual nem eu tinha a chave. A vida segue. A gente sobrevive.

Março. Trancada em casa. Febre e dor e cansaço. Olhos fundos, tão tão fundos. Uma pulsação fora de controle. Um medo no escuro. Da doença? Não. Eu nunca achei que ia complicar, muito menos que eu ia morrer. Outra coisa. A coisa no fundo de um corredor em mim, no quarto do qual eu não tinha a chave. Um medo mortal. A doença foi me largando. Trabalho pra fazer, mudança de casa pra lidar, filha pra cuidar, roteiro de filme pra terminar. A vida segue. A gente sobrevive. 

Os meses foram todos indo e vindo. Fecha tudo. Abre tudo. Trabalho antigo de volta. Trabalho novo pintando. Vida quase normal. O quarto escuro lá no fundo, olhando pra mim. A chave?… A chave?… Não queria saber. Não tinha importância. Acorda, trabalha, dorme. Acorda, trabalha, dorme. Acorda. Acorda. Acorda! 

Sentei na cama. Puxei o ar. Olhei em volta. O tal quarto escuro escancarado bem ali, iluminado e magnificado, de doer nos mil olhos que eu nem tenho, gritando comigo, alto e furioso, inclemente, na minha cara, feito uma bofetada em loop infinito. E tudo tremeu. E tudo veio abaixo. Quanta, quanta coisa trancada ali por tanto tempo. Por todos os tempos. 

Onde eu estava enquanto isso acontecia?… Acordando. Dormindo. Trabalhando. Andando no parque. Trabalhando. Dormindo. Dormindo. Dormindo. Até simplesmente não poder dormir mais…

Um ano chamado 2020 veio. E a vida até segue. Mas não há sobreviventes.