A Saída: Ela Sempre Existe, Meu Caro Watson

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Eu estava com um pequeno problema. Todos os dias eu levava minha filha a uma determinada atividade, na parte da tarde, que durava uma hora e meia. Como o tempo é curto e eu levaria toda essa hora e meia apenas para voltar para casa e de lá de volta para buscar a pequena, comecei a usar esse tempo a meu favor.

A apenas dez minutos de onde eu deixava minha filha tem um parque belíssimo e, melhor do melhor dos mundos, dentro deste parque tem uma biblioteca – maravilhosamente silenciosa e aquecida (hello, hello, se você chegou agora a este blog, saiba que sou uma carioca que se mudou há apenas alguns meses para a cidade do Porto, em Portugal, e estamos no inverno… é frio… muuuuuuuito!).

Enfim, o tal parque com biblioteca foi a melhor coisa pra mim. Quando está um dia de sol, eu gasto quinze minutos fotografando do lado de fora. Em dias de chuva, well, direto para o trabalho ou o curso on-line ou o que quer que eu precise fazer usando apenas um celular, um bloco com lápis e uma coisinha linda chamada wi-fi!

Neste ponto você já leu três parágrafos e não viu problema nenhum, certo? Bom, eu disse que era pequeno… mas chato. O negócio é que a entrada principal do parque, que ficava bem de cara para o sinal que eu tinha que atravessar, e de frente para a rua que eu tinha que descer para estar na porta de onde eu buscava minha filha em apenas dez minutos… o caso é que esta entrada estava interditada por conta de uma obra.

Eu já conhecia uma outra entrada (porque tinha usado num outro dia num passeio em família, por alguma razão) e passei a usá-la. O problema é que essa entrada alternativa ficava bem mais longe do meu caminho natural de volta, de modo que eu precisava de dez minutos extras. Dez minutos roubados do meu precioso tempo na biblioteca dos sonhos. Era uma volta interminável que eu tinha que dar, todo santo dia. Super contra-mão. Enfim, o negócio começou a me “atucanar”.

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Depois de uma semana inteira fazendo essa dinâmica, atingi o ápice da irritação. Eu estudei um pouco naquele dia e aí… uau… me veio à cabeça uma idéia, uma sequência de imagens que resolviam o problema de andamento de um roteiro de filme no qual venho trabalhando. Comecei a escrever no bloquinho que carrego. Perfeição. Maior diversão da vida. E desgraça desgraça desgraça total porque, óbvio, eu perdi um bocado o relógio de vista.

Saí correndo de lá com cinco minutos a menos do que o necessário pra fazer toda a minha manobra dos infernos… Só aí, finalmente, entre uma falta de ar e um palavrão dito mentalmente, me ocorreu:

“Será que não tem uma terceira saída do parque? Tipo, pertinho da biblioteca?… Porque não faz sentido uma biblioteca com tanto movimento, feito essa, não ter uma saída próxima a ela…. Né?… Não faz nenhum sentido…” 

Feito uma pedra me acertando bem no meio da cara, quando eu já sabia que ela vinha na minha direção e apesar disso eu não me mexi (sabe como? esse tipo de vergonha? bom, existe… aconteceu com um coleguinha meu do jardim dois) eu, de repente, me dei conta:

É claro que tem uma outra saída do parque! Bem na cara da biblioteca, do lado para onde eu dava as costas toda vez que eu saía apressada, ofegando e praguejando mentalmente. Estava bem ali. A solução. A saída. Só esperando o momento em que eu parasse de concentrar toda a minha energia em reclamar e resolvesse, apensa por dois minutos, especular sobre a possível existência de uma opção melhorzinha.

Dia seguinte, fui direto, logo no caminho de ida, pela tal entrada/saída que ficava na porta da biblioteca. Um frio cachorro naquele dia. E tudo branco, feito o episódio mais sombrio de Sherlock Holmes que você possa imaginar.

Uma gaivota magnífica e solitária, pousada no topo de um poste, me olhando. E eu passando, entre maravilhada e cheia de vergonha, pela simplicidade elegante da vida e seus desafios. Uma centena de dramas bem maiores do passado desfilando, feito um filme, pela minha cabeça com suas respectivas saídas que eu, igualmente, tinha me recusado a ver enquanto arrastava os pés reclamando, reclamando, reclamando. Saídas, eu as amo! E prometo lhes devotar mais atenção, muito mais rapidamente, de agora em diante.

A gaivota se deixou fotografar algumas vezes e levantou voo. Ali estava frio demais. Ela precisava de uma nova saída. E lá se foi. Simples assim. Elementar, meu caro Watson.

Começar do Zero… Isso é Mesmo Possível?

A vida como uma folha de papel em branco. Cada erro estúpido que você já cometeu, apagado. Todas as possibilidades na sua mão como uma nova e linda caneta. Você pode apenas começar a escrever uma nova história e dessa vez vai dar tudo certo.

Reconhece a fantasia? Eu aposto que sim, porque todos nós nos deliciamos com ela, de tempos em tempos. Eu mesma provavelmente comecei ali pelos doze anos – meus amigos não se cansam de dizer quão velha eu já era desde os primeiros anos e, bom, eles têm uma certa razão!

Então, neste momento, na minha vida, tive a oportunidade de transformar a fantasia em realidade. Decidi me mudar para outro país. Me livrei de tudo o que era velho, ou quebrado, ou não exatamente do meu gosto. Cuidadosamente selecionei minhas roupas, livros e pequenos objetos favoritos. Até fiz um check-up completo com a minha médica só para ter certeza de que eu estaria virando a página totalmente saudável, nova em folha. E aí, de repente, eu me vi dentro de um avião. Dez horas depois, aqui estava eu: no meu próprio sonho de começar do zero, tornado real.

Mas eu estava mesmo partindo do zero? De fato? A sensação nunca foi completamente essa… Quer dizer, aquela sensação toda de novo país, novo apartamento, novo tudo aconteceu. Mais do que aconteceu, me atropelou – de uma maneira ótima, pelo menos pra mim, uma pessoa que adora mudanças. Mas passado esse primeiro susto, o que eu realmente encontrei no que deveria ser a minha “página em branco”? Eu mesma. Um monte de coisas novas, com certeza, mas elas estavam apenas “sentadas” no topo de, e sendo moldadas por, uma velha base que eu conheço tão bem e que atende pelo nome de Flávia Ruiz.

Eu estava subitamente mais corajosa ou extrovertida só porque ninguém por aqui me conhece mesmo e quem se importa?… Não! Eu estava livre do meu medo de altura? Ou de pássaros? Cavalos? Abelhas? Basicamente qualquer coisa que pode ser encontrada em lugares ao ar livre (sim, a lista segue e segue…)? De jeito nenhum. Que tal mais descolada ou confiante no que se refere às minhas ambições e escolhas profissionais? Oh, sim, vai sonhando!…

A questão é: eu rapidamente me encontrei lidando com as mesmas coisas da minha própria e velha maneira. Isso quer dizer que eu vou, de agora em diante, aconselhar as pessoas a não fazer mudanças? Nem de longe! Muito ao contrário. Eu apelo firmemente a todos que o façam, da forma que possam ou queiram, ou quanto antes. Porque a mudança externa é a coisa que vai sempre te olhar nos olhos e gritar na sua cara: “você não pode fugir”. Da vida, das fraquezas, de você mesma. Não pode. Na verdade, o oposto acontece.

Alguma estranha força da natureza te empurra a ser mais e mais você mesma. Às vezes, de forma intensamente dolorosa. E no exato momento em que você realiza isso, essa é a hora em que você começa a percorrer o caminho que leva para onde você queria ir em primeiro lugar, de forma bem mais instantânea, mas nem um pouco real: o caminho de escrever, não uma história, mas um capítulo novo. Porque a história começou há muito tempo. Não pode jamais ser apagada. E não é precisamente isso que a torna tão incrível?…